A referência desta aula será o livro "Teorias de Aprendizagem", de Marcos Antônio Moreira.
Referência: MOREIRA, Marco Antonio. Teorias de aprendizagem. 3. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2022.
Mais especificamente, estudaremos a Introdução, o Capítulo 1 (Teorias behavioristas antigas) e o Capítulo 3 (A teoria behaviorista de Skinner).
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Junto ao exponente desenvolvimento dos campos científicos do século XIX, ocorre o surgimento da psicologia. Psyche, do grego, significa alma. Portanto, psicologia significa o estudo da alma, o que depois se desdobrou para espírito, para mente e para comportamento. Como campo científico, a psicologia se diferenciava dos sistemas filosóficos anteriores por se ocupar da mente e do comportamento a partir de observações empíricas.
As primeiras explicações científicas para o comportamento humano eram originadas da biologia, principalmente da fisiologia e da morfologia. Deterministas, as explicações para o comportamento eram relacionadas, em alguns casos, a reações do sistema nervoso; em outros, o comportamento era explicado por formatos do corpo, principalmente do crâneo (frenologia).
Em 1879, na Alemanha, Wilhelm Wundt (1832-1920) fundou o primeiro laboratório experimental de psicologia, em que estudou percepção, atenção, sensações, sentimentos e emoções. O método era a introspecção, em que os sujeitos dos experimentos eram levados a observar seus próprios funcionamentos mentais perante estímulos. A psicologia de Wundt ficou conhecida como estruturalista, pois buscava compreender do que essa estrutura subjacente ao comportamento, a mente, seria formada.
Sensações: Wundt via as sensações como elementos básicos da experiência consciente, "átomos da mente". Elas seriam impressões sensoriais simples e elementares, resultantes da estimulação dos órgãos dos sentidos. Descreveu as sensações em termos de modalidade (visual, auditiva, tátil, etc.), intensidade e duração.
Sentimentos: para Wundt, os sentimentos acompanham as sensações, dando-lhes um tom afetivo. Seriam estados subjetivos de prazer ou desprazer, tensão ou relaxamento, excitação ou calma. Ele propôs um sistema tridimensional de sentimentos, com três eixos: prazer-desprazer, tensão-relaxamento e excitação-depressão.
Percepção: Wundt entendia a percepção como um processo mental ativo e construtivo, que organiza e interpreta as sensações, dando-lhes significado. A percepção não seria uma mera soma de sensações, mas sim uma síntese criativa influenciada pela experiência passada, atenção e outros fatores mentais.
Atenção: a atenção seria o processo mental que focaliza a consciência em determinados aspectos da experiência, selecionando-os e intensificando-os. Wundt distinguiu entre atenção passiva (determinada por estímulos externos) e atenção ativa (dirigida pela vontade).
Emoções: Wundt considerava as emoções como complexos estados mentais que envolvem sensações, sentimentos e processos volitivos (relativos à vontade). As emoções seriam reações complexas a eventos significativos, com componentes fisiológicos (expressões faciais, alterações corporais) e psicológicos (sentimentos, pensamentos).
Noutro sentido, William James (1842-1910) dava origem ao funcionalismo, movimento da psicologia científica que, diferente do estruturalismo, se ocupa das funções da mente e do comportamento para a adaptação do ser humano ao meio. Os funcionalistas também eram pragmáticos ao compreenderem que a psicologia deveria servir para fins práticos. Compreender o funcionamento da mente e do comportamento pode ajudar as pessoas a se desenvolverem e alcançarem seus objetivos. Também pode promover o desenvolvimento social positivo.
Em meio a estruturalistas e funcionalistas, esteve Sigmund Freud (1856-1939). Freud atuou de maneira diferente dos psicólogos experimentais e desenvolveu uma psicologia clínica, qualitativa e mais próxima ao que hoje conhecimentos como ciências humanas. A partir de diálogos com seus pacientes e, também, por meio do método de introspecção, Freud descreveu a mente a partir de sua estrutura e de seu funcionamento.
Freud se formou em medicina e se especializou em neurologia. Na França, teve a oportunidade de trabalhar em um hospital sob a chefia do neurologista Jean-Martin Charcot (1825-1893) (pai na neurologia moderna). Especializado no tratamento da histeria, doença que atingia principalmente mulheres da época, Charcot fazia demonstrações públicas da eficácia da hipnose na diminuição dos sintomas. Freud não era bom hipnólogo e não conseguia hipnotizar suas pacientes. No entanto, Freud descobre que o verdadeiro alívio dos sintomas da histeria estava relacionado ao momento em que o paciente fala livremente sobre seus pensamentos e sentimentos. Esse método ficou conhecido como "livre associação".
De volta à Viena, sua cidade natal, Freud continua a se dedicar à histeria, porém, agora, junto com o médico fisiologista Josef Breuer (1842-1925). Breuer tratou de uma paciente que ficou conhecida como Anna O. No caso de Anna O., a paciente sofria de uma série de sintomas histéricos, como paralisia, distúrbios de visão e fala, e alterações de personalidade. Breuer a tratou com hipnose e "cura pela fala", incentivando-a a recordar e verbalizar experiências traumáticas reprimidas. Ele observou que os sintomas de Anna O. diminuíam à medida que ela expressava suas emoções e memórias traumáticas.
Emmy von N foi uma paciente tratada por Freud cuja hipnose não ajudava. Freud, então, decidiu tratá-la exclusivamente pela fala. Durante as seções, porém, Freud a interrompia com perguntas e observações. Em dado momento, Emmy pede que o terapêuta pare de lhe interromper. Livre para falar, fica evidente, para Freud, que os sintomas de Emmy estariam relacionados a lembranças de momentos traumáticos relacionados à morte de seu marido; e que falar sobre esses momentos ajudava na diminuição dos sintomas.
Outro caso emblemático foi de Dora, que vivia em Viena em uma época de repressão sexual e valores morais rígidos. Seu pai, um homem de negócios rico e influente, mantinha um relacionamento extraconjugal com a Sra. K, esposa de um amigo da família. O Sr. K, por sua vez, assediava Dora desde os 14 anos. Essa complexa teia de relacionamentos e conflitos familiares desempenhou um papel central no desenvolvimento dos sintomas histéricos de Dora, que envolvia ataques de agitação, corrimentos, amnésia, fadiga e tosse.
Pelas seções terapêuticas, Freud interpretou os sintomas de Dora como expressões de desejos e conflitos sexuais reprimidos, relacionados à sua atração pelo Sr. K e a rivalidade com a Sra. K. Ele também identificou uma transferência de Dora em relação a ele próprio, ou seja, ela transferia seus sentimentos e desejos inconscientes em relação ao Sr. K e a Sra. K na figura do próprio Freud. Com essa transferência, Freud descobre que é possível acessar uma estrutura encoberta da mente, o inconsciente, algo que também seria possível por meio da hipnose. A transferência também permitiria que o terapeuta conhecesse e pudesse tratar dos padrões de relacionamento que levavam a paciente aos sintomas histéricos, os ressignificando enquanto durasse a relação entre terapeuta e paciênte.
Também chama atenção um sonho relatado por Dora, em que está em meio a um incêndio, com Sr. K tentando salvar a todos. Quando acorda, continua a sentir cheiro de fumaça no quarto. Freud acaba por interpretar que os elementos do sonho são metáforas quanto ao desejo sexual reprimido de Dora pelo Sr. K. Desse modo, Freud também entende o sonho e sua interpretação como algo que pode ajudar no tratamento de sintomas psicológicos.
Anne O. (à esquerda), Emmy von N. (centro) e Dora (à direita).
Com os estudos clínicos, Freud formula uma teoria da mente em que diz sobre um funcionamento e uma estrutura. Em termos de funcionamento, a mente funciona a partir de pulsões e repressões a partir do id, do ego e do superego. O id seria o funcionamento mais primitivo da mente, que gera pulsões de vida (quando se busca construir, aproximar) e de morte (quando se busca destruir, afastar). O ego seria uma função com início de desenvolvimento na primeira infância e estabelece repressões da realidade sobre as pulsões. Desse modo, o indivíduo aprende que deve buscar satisfazer seus desejos dentro de certos limites naturais. Por fim, o superego, que começa a se desenvolver a partir dos 5 anos, é o funcionamento mental a partir das repressões morais, das regras impostas pela sociedade.
As pulsões e as repressões são colocadas em disputa pelo funcionamento da mente, o que resulta no comportamento. Quando as pulsões primitivas não podem ser satisfeitas integralmente, pelo motivo das repressões, então o indivíduo encontra desvios, ou seja, formas criativas de realizar suas pulsões dentro dos limites naturais e sociais. Quando esses comportamentos desviantes não são aceitos socialmente ou provocam algum prejuízo ao indivíduo (como no caso da histeria), no entanto, eles precisam ser tratados pelo método freudiano que ficou conhecido como psicanálise. Desse modo, a partir da introspecção, da livre associação, das transferências e das interpretações psicanalíticas, ocorre o acesso às estruturas topográficas da mente: inconsciente, pré-consciente e consciente.
O inconsciente é inacessível e, nele, opera o id. Aquilo que está mais fácil de ser acessado são os pensamentos e os sentimentos do consciente. Nesse nível, o indivíduo tem condições de explicar os motivos mentais do seu comportamento. Porém, há comportamentos que não são fáceis de explicar, pois suas funções mentais estão localizadas no pré-consciente. O pré-consciente não está prontamente acessível, de modo que seriam necessários determinados esforços para esse fim. A tarefa clínica do psicanalista seria, então, promover esses esforços, para que o pré-consciente se torne, então, consciente. Somente a partir desse momento, determinados comportamentos a princípio inexplicáveis poderiam ser compreendidos e devidamente tratados.
No final do séc. XIX, Ivan Pavlov (1849-1936) era um fisiologista russo que desenvolvia experimentos sobre a salivação canina em contato com o alimento. O cientista instalava, cirurgicamente, tubos coletores de saliva às glândulas salivares dos cães. Esperava, assim, fazer medições sobre o volume dessa salivação. Porém, algo vinha dando errado. Com o tempo, os cães começavam a salivar antes do início do experimento, apenas com a visão do alimento sendo preparado. Mesmo que fossem colocadas barreiras, somente ouvir os movimentos da equipe no laboratório parecia suficiente para o cão iniciar o processo de salivação. Com isso, Pavlov passou a conduzir uma série de experimentos no intuito de compreender o que estava ocorrendo.
Pavlov supôs que o cão estava aprendendo a salivar na presença de outros estímulos. Isso contrariaria o que se pensava até o então, que os animais não humanos tivessem apenas comportamentos inatos. Para seus experimentos, Pavlov escolheu dois estímulos como variável independente. Um que ele chamou de estímulo incondicionado, com o qual o cão demonstra uma resposta inata (ou reflexo inato), a variável dependente. No caso da resposta de salivação, o estímulo é a apresentação do alimento. O outro tipo de estímulo foi chamado de neutro, pois o cão não demonstraria a resposta testada. Vamos usar, aqui, para demonstrar o experimento de Pavlov, o som de um sino.
Portanto, o cão saliva para o alimento, mas não para o sino. Contudo, quando os dois estímulos são apresentados juntos (pareados), o cão saliva. Nesse caso, ele estaria salivando para o alimento. Ao se retirar o alimento, o cão deixa de salivar. Porém, depois de um certo número de repetições desse pareamento de estímulos, ao se retirar o alimento, o cão continua a salivar para o som do sino. Desse modo, o sino se tornou um estímulo para a salivação do cão. A esse novo estímulo Pavlov deu o nome "condicionado". Conclui-se que o comportamento de salivar do cão passa por um processo de condicionamento, em que um estímulo antes neutro para a resposta passa a eliciá-la.
John Watson (1878-1958) foi um psicólogo americano que transpôs o condicionamento pavloviano para a o campo da psicologia. Com isso, fundou a filosofia behaviorista, em que propunha uma ciência do comportamento humano que não tivesse a mente como objeto de estudo. Atualmente conhecida como behaviorismo metodológico, essa filosofia da ciência, baseada no positivismo lógico, propõe que, como ciência moderna, a psicologia só tem sentido ao estudar aquilo que pode ser consensualmente observado: o comportamento.
Watson propôs que a teoria do condicionamento pavloviano seria a chave-mestra da psicologia comportamental, de modo que todo comportamento humano pudesse ser explicado e controlado por essa teoria. Assim como John Locke no iluminismo, para Watson, o ser humano nasceria como uma tábula rasa, com apenas alguns reflexos básicos inatos e, a partir do pareamento de estímulos incondicionais e neutros, ao longo da vida, formaria novos e mais complexos reflexos. Portanto, o ambiente seria o principal determinante do comportamento.
Um dos mais conhecidos trabalhos de Watson foi o Experimento do Pequeno Albert. Com ele, Watson mostrou que as crianças não nascem com certos tipos de aversão, como a ratos e ao fogo, por exemplo. Watson apresentava esses estímulos para um de seus sujeitos experimentais, o Pequeno Albert, que, com poucos meses de idade, não parecia se importar e até se sentia atraído pelos estímulos que causam medo na vida adulta. Portanto, algumas formas de aversão seriam, de fato, aprendidas ao longo da vida. Com esse experimento, Watson também demonstrou o contrário: que as pessoas poderiam aprender a ter medo de coisas que normalmente agradam as pessoas, como é o caso de bichinhos fofinhos, como um coelho. Para isso, Watson usou um estímulo incondicionado para o comportamento de se assustar e chorar: um som alto e estridente, como de pratos de bateria sendo tocados próximos ao ouvido. Pareou, então, esse estímulo à apresentação de um coelho à Albert. O coelho, nessa fase da vida, representa um estímulo neutro. Por fim, com um certo número de repetições do pareamento, o coelho se tornou um estímulo condicionado para o comportamento de se assustar e chorar da criança. Ela havia aprendido comportamentos que surgem da aversão a coelhinhos fofinhos.
Outro behaviorista metodológico foi Edwin Guthrie (1886-1959). Esse propôs que o comportamento é formado em uma única ocasião em que uma determinada resposta é eliciada por dado estímulo. Quer dizer, a frequência com que um dado comportamento ocorre se torna maior que zero a partir do primeiro momento em que esse comportamento ocorre.
Precisamos compreender, aqui, que comportamento não é equivalente à ação isolada do organismo. Toda ação é resposta a um estímulo do ambiente. Portanto, comportamento é formado pela resposta em relação a um ou mais estímulos. Por esse motivo, a psicologia comportamental do behaviorismo metodológico também ficou conhecida, de modo grosseiro, como a psicologia do SR (stimulus-response) ou, em português, do ER (estímulo-resposta).
Guthrie realizava experimentos com animais em caixas-problema (puzzle box, em inglês). Essas caixas possuíam mecanismos que podiam retirar o animal, preso nelas, de seus estados de privação. Em um dos experimentos, um gato é colocado em uma gaiola que contém uma alavanca, que faz abrir essa gaiola e coloca o gato em liberdade. Nos primeiros ensaios, o gato demonstra uma variedade de movimentos até que, acidentalmente, um de seus movimentos aciona a alavanca. Com o passar de dezenas de ensaios, com o mesmo animal, percebe-se, então, que seus movimentos estão diferentes, mais próximos daqueles que podem acionar a alavanca e abrir a caixa. Para Guthrie, a cada movimento que o gato faz, maior será a frequência desse mesmo movimento no futuro.
Com a prática, ocorre a exposição repetitiva do organismo aos estímulos condicionados. Isso provoca novas conexões ER e, portanto, a associação de mais movimentos ao comportamento complexo. Ocorre, então, a formação do hábito, que é a cadeia de conexões ER que se formam com a prática.
A imagem mostra o momento em que o gato consegue acionar a alavanca para sair da gaiola em cada uma das 24 repetições do experimento. É possível notar a refinação do movimento e o estabelecimento de um padrão mais assertivo.
Edward Thorndike (1874-1949) também estudou o comportamento a partir de caixas-problema envolvendo animais. Contudo, esse pesquisador acrescentou uma variável de comparação: um estímulo a mais, um alimento, que seria colocado às vistas do animal em privação alimentar, fora da caixa. Com isso, Thorndike observou que o animal aprendia mais rápido os movimentos necessários para sair da caixa. Desse modo, Thorndike fornece uma das primeiras e mais indicativas evidências que o comportameto também poderia ser controlado por estímulos consequentes (Lei do Efeito), e não apenas por estímulos antecedentes (como propunha a psicologia do SR).
Thorndike também colocou seres humanos em situações-problema e comparou as curvas de aprendizagem desse com a de outros animais. Com isso, ele descobriu que, diferente dos animais, os seres humanos parecem desenvolver uma solução cognitiva, por meio da linguagem, para seus problemas. O ser humano é capaz de aprender determinados conhecimentos que lhe dão predisposição para se comportarem de determinadas maneiras em detrimento de outras. Isso faz com que, a curva de aprendizagem do ser humano, perante um dado problema, tenha uma queda abrupta e se mantenha estável a partir do momento em que uma dada solução cognitiva é formada. Por outro lado, a curva de aprendizagem de outros animais não parece formar esse padrão, de modo que ela vai se inclinando para o sentido de os animas resolvam os problemas em menos tempo, porém, caso a caso, é possível perceber que esse tempo é variável. Com isso, interpreta-se que os animais continuam a agir por tentativa e erro, e que a aprendizagem ocorre somente a partir do aperfeiçoamento de seus movimentos.
Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) foi um psicólogo norte-americano que se opôs tanto ao mentalismo quanto ao behaviorismo metodológico. Skinner era um pragmatista e criticou a serventia de uma psicologia que se propunha a explicar o comportamento a partir de configurações e estados mentais. Para ele, a mente era tida como um homúnculo, ou seja, uma entidade que vive dentro do organismo e controla seus comportamentos. Essa seria uma ideia absurda, que extrapolaria as leis conhecidas da natureza e, dessa maneira, estaria fora das possibilidades de controle fornecidas pela técnica.
Para Skinner, os behavioristas metodológicos não haviam escapado da armadilha do mentalismo. Eles consideravam existir uma mente, mas a definiam como um objeto que escaparia ao conhecimento científico. Além disso, para explicar o complexo comportamento humano, muitos deles acabavam por apelar para termos e explicações mentalistas, como é o caso do hábito de Guthrie. Outros passaram a ser conhecidos como behavioristas mediacionais, pois, para explicar suas teorias, admitiam haver a possibilidade de estudar e propor processos mentais associados às teorias do condicionamento e da determinação do ambiente. Clark Hull (1884-1952) foi um behaviorista mediacional que propôs que explicações completas ao comportamento só poderiam ser dadas ao se considerar as variáveis intervenientes, ou seja, construções simbólicas que ocorrem no organismo no momento entre a apresentação do estímulo (variável independente) e a observação da resposta (variável dependente).
Tanto Skinner quanto Hull foram influenciados pela Lei do Efeito de Thorndike e propunham que as consequências do comportamento poderiam exercer algum controle sobre ele. Skinner foi, ainda, além e tomou a teoria da seleção e adaptação das espécies, de Charles Darwin (1809-1882), como referência de seus trabalhos. Compreendeu que, assim como há comportamentos que se formam filogeneticamente, ao longo das gerações, a partir da variação comportamental e da seleção natural daqueles comportamentos mais adaptados ao meio; ao longo da vida o organismo demonstra uma variabilidade de respostas que seriam selecionadas a nível ontogenético. Quer dizer, de modo grosseiro: as respostas que que geram mudanças "apetitosas" para o organismo no ambiente (consequências reforçadoras) se mantêm; aquelas que geram mudanças aversivas (consequências punitivas) diminuem em frequência. Esse tipo de comportamento teria surgido, evolutivamente, pela sobrevivência do organismo em meio às mudanças que ele próprio promove em seu meio.
Isso (a operância), no entanto, não aconteceria para todo e qualquer comportamento. Skinner descobriu, assim como Pavlov, que há comportamentos que são controlados exclusivamente pelos estímulos antecedentes do comportamento. Esses são os reflexos, que podem ser aprendidos por meio do condicionamento pavloviano. Porém, nas formas de vida mais complexas e, principalmente, no ser humano, grande parte do repertório comportamental não é formado por reflexos, mas, sim, por comportamentos operantes. Operantes são aqueles comportamentos sensíveis às mudanças ambientais que causam, ou seja, aos estímulos consequentes. São, portanto, controlados principalmente esses estímulos, de modo que os estímulos antecedentes passam a cumprir apenas uma função discriminativa de quando o comportamento tem maiores ou menores chances de ser reforçado: são os estímulos discriminativos.
Do mesmo modo que o comportamento reflexo condicionado é formado por condicionamento pavloviano, o comportamento operante também é desenvolvido por condicionamento. Porém, em vez de pareamento de estímulos, o comportamento operante se vale das consequências do comportamento em dois sentidos: da discriminação e da generalização.
O condicionamento operante por discriminação de estímulos acontece quando, inicialmente, uma mesma resposta (R) gera consequência reforçadora (CR) perante dois estímulos discriminativos distintos (EA e EB). Em algum momento, uma das situações (EB), a R para de produzir CR. Desse modo, R vai diminuindo de frequência até que sofre extinção, quando sua frequência chega a 0 perante EB. Esse é um processo denominado extinção operante. No caso, a extinção ocorre para EB, mas o comportamento se mantém em EA. Diz-se, então, que o organismo aprendeu a discriminar o momento adequado de emitir determinada ação (R) entre duas situações distintas. Por exemplo, imaginemos que um ribeirinho costuma pescar (R) em dois rios distintos (EA e EB), sempre obtendo boa quantidade de peixes (CR). Porém, em determinado momento o rio EB não parece mais produtivo e, desse local, o pescador volta para casa com um tanto de peixe que não vale o trabalho. Desse modo, o pescador pode pensar que seja má sorte, ou um período passageiro, e volta mais algumas vezes para rio, mas obtém o mesmo insucesso. Isso faz com ele, em certos dias em que costumava pescar em EB, passe a visitar o EA. A frequência com a qual seu trabalho é realizado em EB vai diminuindo de frequência, até que o pescador decide que deve se manter apenas em EA. Assim, o ribeirinho aprendeu a discriminar em que situação seu trabalho de pescador vale a pena ser realizado.
Noutro sentido, o condicionamento operante pode ser por generalização de estímulos. Quando, inicialmente, a R ocorre perante EA, em que é reforçada (CR), mas não perante EB. Contudo, em algum momento a situação ocorre a partir de um pareamento de EA com EB, levando R a ser emitido, em decorrência de EA. Contudo, a partir do momento em que esses estímulos discriminativos voltam a ocorrer separadamente no ambiente, o organismo pode ter sido condicionado a emitir R para EB. Caso as condições favoreçam que R seja reforçado perante EB, então a sua frequência passa a aumentar em frequência e R passa a ocorrer tanto para EA quanto para EB. Por exemplo, se uma criança aprende falar "bicho" (R) ao ver cachorros e ganha elogios (CR) por isso, o padrão quadrúpede do cão pode ser identificado como estímulo discriminativo (EA). Nesse sentido, ao se deparar com outro animal quadrúpede (EB), a criança poderá voltar a falar "bicho" e, novamente, ser elogiada (CR) por isso. Assim, a criança aprende a generalizar a R bicho em relação a grupos distintos de animais. Ainda sobre esse exemplo, podemos descrever o processo inverso, de discriminação, em que, ao ver uma cadeira rústica, a criança aponte e fale "bicho", o que gera uma repreensão vinda de outra pessoa ao dizer "isso não é um bicho", em tom grave. Assim, a criança aprende que nem todos os objetos apoiados sobre quatro pés podem ser chamados de "bicho".
Enquanto comportamentos filogenéticos são formados ao longo das gerações, por variação e seleção de características hereditárias; enquanto os comportamentos ontogenéticos são formados ao longo da vida, por variação e seleção de comportamentos operantes; comportamentos culturais são aqueles formados por variação e seleção de operantes verbais, possíveis de serem passados ao longo da geração na forma de linguagem, de conhecimento.
Comportamento verbal é um operante cuja consequência é produzida na comunidade verbal, quer dizer, pelos outros organismos que se comunicam com você (em especial, da mesma espécie). Se um comportamento é controlado socialmente, então ele é um comportamento verbal. Mas, nem toda espécie que possui comportamento verbal desenvolve comportamento cultural. Algumas poucas espécies mais recentes na história evolutiva, como de macacos e golfinhos, possuem comportamentos culturais. Porém, não podemos dizer que tais comportamentos são tão variados como aqueles apresentados por seres humanos. Pode-se dizer que o diferencial humano seria a constituição de uma linguagem deveras complexa, que se apresenta em diversos formatos (oral, por sinais, por signos, por símbolos, etc.) que têm alta equivalência entre si e podem concorrer concomitantemente dentro de uma mesma população. Também pesa o fato de alguns poucos símbolos simples gerarem um sem-número de significados complexos quando articulados uns com os outros.
Skinner chegou a descrever tipos de comportamento verbal que ocorrem em seres humanos. Dentre eles, temos o comportamento ecóico, que é a imitação da fata e responsável pela aprendizagem da linguagem. O tato é o comportamento de equivalência da fala com objetos a que se refere, como o ato de dizer a palavra "ovo" ao se referir ao objeto "ovo"; sem o tato, não há entendimento mútuo. O mando é o comportamento de pedir ou de dar ordens, responsável pelo resultado de as pessoas influenciarem o comportamento umas das outras. Além desses, temos o comportamento de leitura e de escrita, amplamente conhecidos; e existem outros tão importantes quanto os que foram descritos aqui.
O comportamento verbal condiciona o surgimento de regras, que são componentes formadores e transformadores da cultura, pois grande parte do comportamento das pessoas ocorre com base no seguimento delas. São máximas linguísticas que descrevem um dado comportamento em termos da ocasião na qual ele ocorre, de sua topografia (aparência) e suas possíveis consequências. Também são comumente associadas aos mandos e, dessa maneira, ditam as maneiras apropriadas das pessoas agirem.
Regras são bastante úteis quando descrevem as contingências do comportamento. Contingências são relações de dependência possíveis entre dois eventos. Por exemplo: “Maria levou um choque ao colocar o dedo na tomada”. Nesse comportamento há uma relação de contingência, pois é provável que Maria não tivesse levado o choque se não agisse assim. Porém, no caso de “trovejou no exato momento em que João bateu o pé no chão”, a relação deixa de ser de contingência para ser de contiguidade (quando as coisas somente acontecem próximas no espaço e no tempo), isso porque é improvável que o trovão volte a ocorrer em uma próxima batida de pé (uma coisa não tem a ver com a outra). No caso de uma regra que descreva apenas uma relação de contiguidade como se fosse contingência, essa regra é chamada de superstição. O comportamento supersticioso é aquele que fica sensível a um evento contíguo como se fosse contingente.
A filosofia desenvolvida por Skinner ficou conhecida como behaviorismo radical e a ciência que, dela, se originou recebeu o nome de análise do comportamento. Skinner foi o psicólogo mais citado em trabalhos científicos no século XX e teve grande influência na educação. Na concepção behaviorista, educação pode ser compreendida como uma série de eventos sociais que possibilitam um aprendizado mais eficiente do sujeito se comparado com o aprendizado em espécies não sociais. Nesse contexto, o ensino é uma categoria de comportamentos intencionais no sentido de provocar o processo de aprendizado em outrem. No entanto, Skinner critica o sistema educacional por não dar a devida atenção às contingências de reforço. As principais denúncias são que, nas escolas, os reforçadores ocorrem distantes do comportamento a ser aprendido (provas periódicas), perdendo força e, por vezes, reforçando comportamentos acidentalmente e que, muitas vezes, são indesejados (problemas de disciplina escolar).
Para contribuir com a causa educacional, Skinner ficou famoso por desenvolver as máquinas de ensinar, que eram versões mecânicas das aplicações educacionais que possuímos, atualmente, nos dispositivos eletrônicos. Com essas máquinas, os estudantes entravam em contato com o conteúdo e tinham seus aprendizados reforçados em tempos e esquemas efetivos para a modelagem do comportamento.
Outro desdobramento da análise do comportamento foi a descoberta dos comportamentos de fuga e de esquiva. Skinner e outros pesquisadores estudaram a função das consequências punitivas na aprendizagem. Compreenderam que elas podem diminuir a frequência e chegar a extinguir comportamentos em menor tempo, mas que geram subprodutos emocionais e podem não ser bem-vindos. Na fuga, o organismo continua a emitir o comportamento punido, no entanto, realiza uma ação que interrompe a ocorrência da consequência aversiva. Fala-se, por exemplo, que a cadeia no Brasil é uma escola do crime, pois muitos dos presos que saem continuam a cometer crimes e até com mais perfeição, evitando serem pegos. Com a esquiva, o indivíduo acaba por não mais emitir comportamentos semelhantes e relacionados com aquele que gerou a consequência aversiva e isso, às vezes, pode vir a ser um problema. A escola, por exemplo, pune os alunos que não se comportam do modo como as regras colocam. Nesse interim, é fácil encontrar casos de alunos que não querem mais ir à escola, ou, se vão, acabam por não se envolverem em alto grau com as atividades propostas pelos educadores ou até mesmo por agirem com indisciplina. O uso das punições no sistema educacional teria, portanto, pormenores importantes de serem observados e deveria ser evitado, com exceção de alguns casos mais urgentes e necessários.
Apesar de o behaviorismo radical e a análise do comportamento serem de extrema importância para o desenvolvimento filosófico, científico, clínico e educacional até os dias de hoje, especialmente no campo da educação do Brasil, essas perspectivas sofrem de duras críticas. Há opiniões de que Skinner teria sido infeliz ao adotar termos e conceitos que já vinham sendo utilizados pelos behavioristas metodológicos, como “behaviorismo”, “estímulo” e “resposta”. Isso fez com que sua filosofia, sua ciência e sua teoria fossem confundidas com as de Pavlov, Watson, Guthrie e Thorndike, recebendo, de modo, as mesmas críticas. Além disso, muito da apropriação do behaviorismo radical e da análise do comportamento para fins educacionais foi desastroso pelo fato dos implantadores não terem toda a propriedade necessária da teoria e por essa implantação ter ocorrido juntamente à racionalidade técnica prevalecente na época. Atualmente, o behaviorismo de Skinner encontra-se em meio a uma luta para a superação de velhos preconceitos e para ser reconhecido como um conjunto de conhecimentos e práticas pertinentes para o contexto educacional no Brasil.
O caso:
Em uma escola da rede pública de educação básica, o nono ano do ensino fundamental tem se apresentado um desafio.
Professores vinham se incomodando com estudantes indisciplinados e com maiores dificuldades. Então, a gestão da escola teve a ideia de juntar esses estudantes, todos, em uma mesma turma, a famigerada "Nono D". Diziam que, assim, eles não atrapalhariam os estudantes mais interessados em estudar.
Dentre os estudantes nessa sala, alguns dormem e não prestam atenção em nada; outros ficam acordados, mas também não se atentam às atividades. Há, também, aqueles que conversam demais com os colegas e até fazem bagunças exageradas. Têm estudantes violentos e, outros, desrespeitosos.
Um dos casos foi com Amanda, que ia para a aula, mas não conseguia se manter acordada. Os professores, então, a acordavam, às vezes faziam piadas ofensivas contra ela e, quase sempre, a mandavam para fora da sala de aula. Com o tempo, Amanda deixou de ir às aulas e seus pais a mudaram de escola.
Outro caso é com José, que muitas vezes foi pego colando nas tarefas e provas e teve prejuízos com isso. Com o tempo, ele parou de ser pego, mas os professores desconfiam que ele continua a cometer a infração, pois suas notas são melhores do que seu desempenho nas aulas parece evidenciar.
Há, ainda, Catarina e Daniel. Esses são estudantes violentos e que desrespeitam muitos professores. Com isso, acabam sempre sendo mandados para fora. Assim, eles perdem aulas e vão muito mal nas provas, repetem de ano, mas parecem não estar ligando muito para o problema.
O problema:
Você e seus colegas são professores do Nono D e acabam de receber uma formação continuada em que aprenderam sobre o behaviorismo e a análise do comportamento. Agora, foram convidados a utilizar desses conhecimentos para compreender e agir sobre os problemas relatados. Então, vamos tentar primeiro compreender a situação para, depois, propor soluções.
Agora, junte-se em um grupo de entre 3 e 5 pessoas, discutam o caso e respondam às seguintes questões.
ATENÇÃO: para cada caso, o conjunto das suas respostas deve conter os seguintes termos: comportamento, estímulo, consequência, fuga e esquiva.
1) Caso da Amanda:
a) O que pode explicar o fato de Amanda não conseguir se manter atenta nas aulas?
b) Por que motivo ela pode ter evadido à escola?
c) Qual seria a estratégia adequada com Amanda?
2) Caso do José:
a) O que poderia estar levando José a colar nas provas?
b) Por que motivo os professores não identificam mais José colando?
c) Qual seria a estratégia adequada com José?
3) Caso de Catarina e Daniel
a) O pode estar mantendo o comportamento agressivo desses estudantes?
b) Qual a razão de as punições não estarem funcionando com eles?
c) Qual seria a estratégia adequada com Catarina e Daniel?
Por fim, encerre a discussão no tempo estabelecido pelo professor e discuta, com o restante da turma, suas respostas. Será que elas correspondem aos conhecimentos científicos do behaviorismo?