A referência desta aula será o livro "História da Filosofia", da coleção "Os pensadores" e escrito por Bernadette Siqueira Abrão.
Referência: Abrão, B. S. História da Filosofia. Os pensadores. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1999. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1xHBzX-OmLAmbh6nQRUu594BBPt79dw8p/view?usp=sharing
Mais especificamente, estudaremos um recorte deste livro, sobre sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles.
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Para ajudar na compreensão do texto desta aula, recomendo que inicie por assistir ao vídeo a seguir até o tempo de 15:35, do canal de Youtube Epifania Experiência (https://www.youtube.com/@EpifaniaExperiencia). Trata-se de um vídeo de humor, leve e didático sobre a história da filosofia até a Revolução Francesa. O texto de nossa aula trará, no entanto, um teor diferente do vídeo. Por esse motivo, assistir ao vídeo não substitui a leitura do texto próprio desta aula.
Primeiro, vamos compreender o contexto. Estamos falando de um tempo e um lugar em que o ser humano se viu livre para pensar e poder explicar o mundo pela razão. Fala-se que, até o então, não havia registro da filosofia pura, ou seja, da busca pelo conhecimento sobre a realidade que se fizesse independente da mitologia.
Na mitologia, as crenças são mantidas pela fé na existência de uma ordem superior a que somente algumas pessoas teriam acesso e poderiam bem representar. Quer dizer, as pessoas não questionam sobre as verdades do mundo, apenas respeitam aquilo que o rei, o sacerdote ou o oráculo diz. Dos mitos (histórias fantasiosas) as pessoas formulavam suas explicações para os fenômenos humanos e da natureza.
A relação entre filosofia e mitologia é bastante complexa, de modo que não é possível se referir a uma ruptura definitiva de um modo de pensar para o outro. Contudo, foi possível observar um ponto a partir do qual se iniciou o processo de distanciamento entre esses dois modelos. Foi quando a Grécia Antiga, por volta de 1150 a.C., passou a ser invadida por povos dórios, o que resultou na retração do comércio que cedeu lugar à economia agrícola, isolamento das aldeias e ao modo de vida tribal. Nesse período, até o séc. VIII a.C., a escrita desapareceu, o que o tornou conhecido como "idade das trevas".
Não se sabe o que ocorreu na "idade das trevas", porém, no séc. VIII a.C., os registros históricos mostram o renascimento do comércio que ganha impulso com a invenção da moeda cunhada, acabando com o isolamento entre as aldeias. As linhagens tribais se dissolvem e encontramos uma sociedade mais complexa que faz seu comércio e as discussões sobre os destinos da cidade na agora, uma espécie de praça central. O nome dessa nova organização social é polis.
Com a descaracterização cultural e o isolamento das tribos da Grécia, reis centralizadores da religião e com poderes divinos não existem mais. As pessoas passam a entender como um momento em que os deuses as abandonaram às suas próprias sortes. Por esse motivo, a organização social e as explicações para o mundo começam devem ser resolvidas pelo meio que o próprio ser humano desenvolveu: o logos, a razão.
O logos é o conhecimento na forma de discurso. O discurso aceito, legitimado, é o discurso com razão. Assim, o que era mais caro aos cidadãos da polis era, justamente, o discurso. O discurso com razão é práxis, faz com que as coisas aconteçam. Este é o ponto a que nos referimos, inicialmente, em que a filosofia começa a se destacar e se distanciar da mitologia e da religião.
Na polis de Atenas, a democracia era o regime político. O regime permitia que todo cidadão que não fosse estrangeiro, mulher ou escravo podia participar das discussões e decisões. Desse modo, o saber falar era visto como uma habilidade importante para a vida em sociedade. Foi nesse contexto em que o ensino profissional surge sendo exercido pelos sofistas, que eram sábios em retórica, oratória e argumentação.
Os sofistas eram considerados estrangeiros e não tinham a permissão de participar da vida política da polis. Por esse motivo, eles não se interessavam pelos destinos da cidade. Assim, a verdade, a justiça e a moral não eram valores que conservavam. Protágoras (485-410 a.C.), considerado o primeiro sofista, afirmava que "o homem é a medida de todas as coisas". Com isso, ele queria dizer que a verdade é somente uma convenção e que muda, conforme uma pessoa consegue fortalecer sua ideia perante seus pares. Desse modo, o importante seria saber bem-dizer, para convencer.
Por essa característica desinteressada na verdade, na justiça e na moral (virtudes), os sofistas provocavam a ira dos cidadãos comuns. Assim, sofista (que remete a sabedoria, em grego) acabava se tornando sinônimo de demagogo. Nesse contexto, sofisma, que antes tinha o significado de argumento, agora passava a significar "argumento falso, para enganar".
Em contraposição aos sofistas, os filósofos socráticos tinham as virtudes como guias do pensamento. A verdade, a justiça e a moral eram elementos essenciais dessa corrente filosófica que recebe esse nome pelo seu principal expoente na época: Sócrates (470-399 a.C.). Cidadão de Atenas, Sócrates era um conversador da agora. Admitia que sabia muito pouco das coisas e conversava para saber mais.
Conta a história que, certa vez, um de seus discípulos consultou um Oráculo que lhe disse ser, Sócrates, o maior sábio. Sócrates soube do acontecido e refletiu, comparando sua atitude a de um famoso político cidade, por todos considerado sábio. Conversando com o sujeito, Sócrates percebeu que era um demagogo, que supunha saber das coisas, mas não as sabia. Assim, concluiu que a sabedoria está em assumir aquilo que não se sabe, em vez de aparentar saber sobre tudo. Lembramo-nos da famosa frase de Sócrates:
Essa história faz acentuar nossa compreensão sobre o antagonismo que existia entre a filosofia de Sócrates e a dos sofistas. Para Sócrates e seus discípulos (os socráticos), os sofistas não podiam nem ser considerados filósofos de fato. Dizia-se que Sócrates era rodeado de homens jovens, a quem conquistava com seu charme físico e intelectual. Filho de parteira, Sócrates comparava sua atividade filosófica à profissão de sua mãe, dizendo que sua tarefa era a de fazer parir o conhecimento verdadeiro que estava dentro dos indivíduos. O método para isso foi conhecido como maiêutica (do grego, arte de partejar).
Para Sócrates, a ideia mais imediata das coisas é a opinião (ou tese). Porém, esse ainda não é o conhecimento verdadeiro que se procura. Sempre há algo mais a se saber e esse algo só é encontrado a partir da dúvida autêntica. A dúvida, colocada em forma de questão, provoca o saber interno como uma antítese (problema). Portanto, se estabelece uma relação dialética entre tese e antítese, fundamental para que a síntese ocorra. A síntese se trata da prevalência do intelecto sobre a opinião.
Como vimos, o interesse de Sócrates não era pelo ensino propriamente dito, mas pelo seu próprio aprendizado. Contudo, aqueles que com ele dialogavam, também aprendiam. Assim, temos a compreensão da dialética provocada por questões-problema que se mantém até hoje como uma das mais efetivas estratégias de ensino e de aprendizagem. Inclusive, todas as ciências modernas são baseadas no questionamento da verdade em suspeição.
Sócrates viveu em uma época em que ser virtuoso era sinônimo de ser cidadão. Tudo se justificava em nome da virtude. Ser virtuoso é, dentre outras coisas, praticar o bem. Nesse tocante, para Sócrates, só pratica o mal quem ignora o que seja a virtude. Portanto, "o que é a virtude" é a pergunta mais importante a Sócrates. Com isso, as questões morais deixam de ser tratadas como convenções baseadas em costumes, passando a ser racionalmente debatidas. Sócrates se torna, então, o pai fundador da ética como disciplina do conhecimento.
Questionar as virtudes era o mesmo que colocar o dedo nas feridas abertas de Atenas, que se afundava em vícios e corrupções, ao mesmo tempo em que seus governantes se diziam justos. Somando-se ao fato de Sócrates não esconder seus hábitos homossexuais, foi condenado à morte por ofender os deuses e por subverter os jovens. Platão relata que Sócrates, firme em suas convicções morais, podia ser salvo, mas não concordou em pedir clemência ou em fugir quando teve a chance, pois acreditava que devia cumprir com as decisões democráticas de seus algozes. Para Sócrates, a lei era soberana. Então, ele morreu ao ingerir uma taça de veneno, acompanhado de seus discípulos, a quem se despediu serenamente.
A bem da verdade, Sócrates nunca escreveu sobre suas próprias ideias. Elas sempre foram representadas nas escritas de seus discípulos e por outras fontes históricas. Platão (428-347 a.C.) foi o principal expoente da vida e, principalmente, das ideias de Sócrates. A partir de diálogos narrados, Platão contava sobre a vida intelectual de Atenas e Sócrates era um de seus principais personagens.
É possível dizer que Platão expressa suas próprias ideias por meio dos diálogos; que muito do que é expresso por Sócrates e por outros personagens (que muitas vezes foram considerados fictícios) eram, na verdade, ideias do próprio Platão.
Uma das ideias mais expressivas de Platão em seus diálogos era sobre a reminiscência do conhecimento. Para Platão, a essência do ser humano seria uma alma que se encontra no mundo das ideias. Esse mundo é algo superior à nossa própria existência e, nele, há a verdade (ideia perfeita) sobre todas as coisas. Portanto, o conhecimento verdadeiro seria algo latente da alma
Quando nascemos, esquecemos desse conhecimento perfeito e a aprendizagem nos faz recordar da verdade. Essa aprendizagem se dá por meio do diálogo e da dialética, método pelo qual podemos ascender ao mundo das ideias. O diálogo, junto com as artes e com a prática das virtudes, permite que conheçamos os fatos, contemplemos o belo e discernimos o bem. Essas operações é que levariam ao "recordar da verdade", à reminiscência do conhecimento.
A "Alegoria da Caverna" de Platão é apresentada em um diálogo entre Sócrates e Glauco, em que recordar a verdade é compreendido como sair de uma caverna. Neste diálogo, Sócrates ajuda Glauco a vislumbrar o estado de ignorância em que estão as pessoas comparando suas condições a prisioneiros acorrentados no fundo de uma caverna. Esses prisioneiros estão presos desde sempre, de modo que não conseguem enxergar nem uns aos outros. A única coisa que enxergam são sombras que se movem na parede em frente. Com essas sombras, também ocorrem sons. Como é a única experiência que tiveram toda a vida, consideram essas sombras como se fossem as únicas coisas reais, o mundo de fato.
Depois, Sócrates cogita que um desses prisioneiros conseguisse se soltar. Que, ao se virar, teria um certo ofuscamento de visão ao ver uma fogueira que se encontra acesa, atrás de si. A visão de algo tão brilhante faz doer sua vista, faz ter vontade de se virar novamente para a parede, mas, com certa insistência, seus olhos se acostumam e consegue ver, inclusive, seus colegas acorrentados. Consegue ver, também, que as sombras são produzidas por objetos que se movem em frente à fogueira, carregados por homens que se escondem atrás de um muro.
A pessoa liberta poderia voltar a se sentar em seu antigo lugar, junto aos seus companheiros de prisão, e conta-lhes toda a verdade sobre o que viu. Eles, então, provavelmente ririam e diriam que o sujeito voltou com a visão estragada. Também poderia se despertar a inveja de uns e a ira dos que são poderosos naquelas condições, sem querer mudá-las. Assim, o liberto não recua e começa a avançar, para saber o que mais teria para além da fogueira. Ao atravessá-la, encontra algo ainda mais claro e ofuscante que ela, que é a saída da caverna e o dia claro do lado de fora. A visão faz doer ainda mais, faz se ter ainda mais vontade de recuar e voltar para a escuridão da caverna, mas ele conduz seu avanço com coragem até se ver fora da caverna.
Fora da caverna, a vista demora a se acostumar e o corpo dói de uma maneira nunca sentida, mas, com persistência, a pessoa se acostuma e passa a enxergar definitivamente a verdade sobre o mundo, sobre a natureza, sobre a beleza e sobre o bem. Assim, Sócrates (ou Platão) termina por concluir que a subida para fora da caverna seria semelhante à elevação da alma de volta para o mundo das ideias, o mundo inteligível. Seria essa a tarefa do cidadão para "se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública".
A reminiscência do conhecimento, contido na alma, parte, então, de um mundo sensível, incial, o mundo das sombras, em direção ao mundo inteligível, das ideias. A ascensão do conhecimento é, então, da opinião (doxa) para a ciência das coisas (epistemé). No início, o que se tem é a ilusão e a conjectura das sombras (prisioneiro), o que, por meio do diálogo, pode evoluir para a crença nos objetos sensíveis (prisioneiro que se liberta e contempla a caverna ao seu redor). Os conhecimentos da matemática, então, ajudam a calcular o que se enxerga e a decidir por onde percorrer (liberto em direção à saída da caverna). Em último plano, a dialética entre a opinião e o problema (a tese e a antítese) leva ao mundo das ideias verdadeiras e, portanto, do bem (aquele que ascende para fora da caverna e alcança o vislumbre primeiro das coisas reais).
O mundo inteligível é formado pela ideia verdadeira das coisas, que são perfeitas e definitivas. Portanto, no mundo sensível, que é imperfeito e mutável, as coisas sensíveis parecem tender à imitação das coisas ideais; a se parecer com elas. Por isso o mundo sensível é o mundo das aparências e nossas opiniões se apegam a aspectos dessas aparências. As coisas nos parecem pelo sentido que temos delas, que também é algo imperfeito e limitado. A ascensão, portanto, do mundo sensível ao mundo inteligível está no sentimento de amor.
O amor provoca, incialmente, o desejo pelas coisas belas do mundo sensível. É o amor carnal. Mas, aos poucos, vai passando a desejar a própria beleza (ideal). Sendo a verdade, a coisa mais bela (a forma perfeita das coisas, o bem), então o amor pelo conhecimento dessa verdade é a atitude do filósofo, é o que significa a filosofia (amor pelo conhecimento). A matéria de contemplação da filosofia seria, portanto, e a verdade; a contemplação da verdade é a teoria (theoría).
A tarefa do filósofo seria ascender ao mundo inteligível e retornar ao mundo sensível, para ajudar seus colegas prisioneiros das aparências a também ascenderem; bem como para cuidar da vida pública, participando da política e das tomadas de decisão. Compreendendo essa tarefa educacional da filosofia, Platão funda a Academia de Atenas (ficava próxima a um bosque dedicada a um herói chamado Academo), um espaço dedicado ao estudo da filosofia, da matemática, da astronomia, da música e outras disciplinas. É o que mais se parece, até o então, na história, com o que conhecemos hoje como escola. O termo scholé, em grego, se referia a tempo livre para brincar, o que levaria ao aprendizado, e era aplicado a atividades desse tipo que ocorriam em praças, templos e ginásios (como era a Academia de Platão). Entretanto, o formato da academia, na época, era mais parecido com uma irmandade, com conotações religiosas.
O retorno ao mundo sensível foi um projeto conduzido pelo discípulo de Platão, Aristóteles (384-322 a.C.). Ele estudou na Academia de Atenas até a morte de seu mestre. Ao deixar a Academia, demonstrou pensar diferente de Platão, ao propor que seria mais útil o conhecimento que pode ser obtido com o estudo do mundo sensível. Para representar essa divergência entre ambos, nos valemos da obra "Escola de Atenas" do pintor renascentista italiano Raffaello Sanzio.
A pintura original interpreta a Academia como sendo o centro que reunia todas as preocupações filosóficas ocidentais, de modo que outros filósofos, como Sócrates, também estão representados nele (mesmo que já tivesse morrido antes da fundação da Academia). Porém, o que nos importa para esta análise é Platão (à esquerda) e Aristóteles (à direita) como figuras centrais que caminham dialogando. Percebe-se que Platão aponta para cima, como se referindo ao mundo das ideias. De outro lado, Aristóteles faz um gesto como se representasse o mundo terreno e sensível.
Tempos depois de deixar a Academia, Aristóteles funda sua própria escola, o Liceu. Mais dedicado ao estudo da natureza, Aristóteles propõe que "nada está no intelecto sem antes passar pelos sentidos”. Portanto, a ideia das coisas é uma abstração das observações exaustivas que fazemos delas (observações empíricas), que formam os conceitos. O ser humano parte de uma opinião das coisas para confrontá-las diretamente (dialética) e, por meio da observação e do diálogo sobre elas, chegar ao phatos (espanto), que é o conhecimento verdadeiro (epistemé).
Observando os fenômenos, a tarefa do intelecto é a de separar as coisas que lhes são acidentais das que lhes são essenciais. O conceito de cavalo, por exemplo. A ele, é acidental a cor ou o tamanho, mas não o fato de ser um animal quadrúpede que foi domesticado, o que lhe confere o sentido de ser um cavalo. Mas a observação do mundo sensível mostra que ele se transforma continuamente. Quer dizer: o que hoje é cavalo, amanhã pode não mais ser. Por isso Aristóteles funda as noções de ato (energeia) e potência (dynamis). O ato é a essência, aquilo que invariantemente a coisa é; enquanto a potência é o que a coisa pode vir a ser.
O movimento constante das coisas no mundo carece, em todo caso, de uma explicação. Assim, Aristóteles diz que esse movimento possui quatro causas: material, formal, eficiente e final. A causa material é aquilo de que a coisa é feita; no caso madeira que se transforma em cadeira por um artesão, a cadeira é feita de madeira. Esse material, para ser cadeira, precisa de uma forma específica: a forma de cadeira. A ligação entre a matéria e a forma se dá pela eficiência que existe entre as duas. Por fim, essa eficiência permite determinada finalidade, como o de ser vendida pelo artesão ou de servir como assento para ele (causa final).
Aristóteles afirma que o conhecimento se expressa pela linguagem e que esta, por sua vez, precisa ser dominada para que sirva de instrumento (organon) ao filósofo. Aristóteles classifica as palavras em vários grupos e categorias, de acordo com a função que cumprem na linguagem. A categoria substância, por exemplo, é representada por aquilo sobre o que se afirma algo (hoje temos os substantivos). O que se afirma a respeito da substância forma o predicado. Na afirmação "os seres humanos são mamíferos", "os seres humanos" forma a substância e "são mamíferos" é o predicado.
Outro elemento essencial da linguagem que se constitua como conhecimento é a referência à totalidade das coisas de um mesmo tipo. Só é conhecimento o que captar a essência, em vez de propriedades acidentais e passageiras. No caso da afirmação anterior, ser mamífero é condição para ser humano e, portanto, demonstra um conhecimento. Contudo, dizer que "um ser humano foi filósofo" nada acrescentaria em termos de conhecimento. Seria apenas uma observação vulgar do mundo sensível, mas necessária para se chegar ao conhecimento. Além disso, outra condição essencial para o conhecimento é que a linguagem não expresse contradições. Quer dizer, algo não pode ser essencialmente coisas que se contrastam, que não cabem juntas. O ser humano não pode ser um mamífero e, em alguns casos, deixar de ser. Se assim fosse, seria apenas uma propriedade acidental, como o fato de um ser humano ser ou não filósofo. Não é necessário que seja filósofo para ser humano e, portanto, ser filósofo é uma propriedade acidental.
Para os socráticos, como era Aristóteles, os sofistas dominavam a linguagem, mas não tinham o que seria essencial do filósofo, que era o amor à verdade e ao conhecimento do bem. Em "Ética a Nicômaco", uma das principais obras de Aristóteles, o autor parte da ideia de que haveria um caráter inicial que não seria propriamente uma virtude, mas que levaria ao ser virtuoso, que é um sentimento de vergonha. Essa vergonha faz o jovem temer fazer o que é desonroso, que não demonstra virtude. Assim, tenta acertar sob o exemplo da autoridade. Perante o exemplo, o sujeito obtém uma resposta para "o que fazer?". Seguir ou obedecer a autoridade levaria, então, a uma conduta ética. A prática da ética conduziria, então, a uma formação estética, para encontrar beleza no que é o bem. Essa seria uma condição de autonomia do ser que, na fase adulta, se veria livre do exemplo; saberia como agir virtuosamente por conta própria.
Referência: Santos, G. C. S. Aprendizagem da Virtude em Aristóteles. Ítaca, n. 15, 2010. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/Itaca/article/view/285#:~:text=Tal%20aprendizagem%20se%20d%C3%A1%20em,o%20gosto%20pelas%20a%C3%A7%C3%B5es%20virtuosas.
De qualquer modo, sabemos que os jovens podem ser facilmente enganados, iludidos com uma autoridade falsa. Assim, importante seria o caminho da formação cognitiva, do questionamento "porque fazer?". Esse caminho também levaria à autonomia da conduta ética, que não necessita seguir exemplos e sabe, por si, o que fazer. Novamente, é o que se espera de uma pessoa adulta.
Nesse cenário, Sócrates não deixa de admitir a existência de pessoas que inicialmente não sentem a vergonha necessária à conduta ética. São pessoas que, se evitam o mal, é pelo medo de serem pegas e punidas. Aristóteles faz compreender que essas pessoas, de caráter duvidoso, não percorrem o caminho que levaria à conduta ética. Seria, essa, "uma criatura inútil". Porém, não há elementos que fazem entender se esse caráter inicial, para Aristóteles, é algo formado ou inato.
Como pudemos ver, a democracia conduz os antigos gregos a uma necessária formação intelectual e retórica. Desse modo, surge um ideal de formação mínima necessária ao cidadão, que ficou conhecido como Paideia. Vemos, portanto, o surgimento do interesse público na formação educacional cognitiva do cidadão, algo que vem sendo praticado até os dias de hoje.
De um lado, Sócrates e os socráticos contribuíram para esse ideal; de outro, os sofistas. Portanto, apesar de um ideal comum, desde a Grécia Antiga a educação é um campo de disputa entre diferentes posições ideológicas. Inclusive, havia outras ideologias e práticas de formação na Grécia Antiga, diferentes dessas a que nos referimos. Algumas práticas eram mais voltadas à militarização, outras à religião, às artes etc.
Em todo caso, é inegável a influência que filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles tiveram na constituição cultural das ciências, do ensino e da aprendizagem. Sócrates, com suas questões problematizadoras que levam à dialética; Platão, com a ideia de superação das ilusões para se alcançar a verdade; e Aristóteles, com seu apelo ao empirismo e ao formalismo da linguagem. Essas apenas são algumas das contribuições que esses pensadores tiveram para com a ciência e a educação ocidental. Não só essas ideias, nem somente esses pensadores, no entanto, fizeram parte da complexa história do desenvolvimento das concepções de ensino-aprendizagem.