Esta aula tem, como referência, a obra "A Taxonomy for Learning, Teaching, and Assessing" de Lorin Anderson e David Krathwohl.
Referência: ANDERSON, Lorin W.; KRATHWOHL, David R. A Taxonomy for Learning, Teaching, and Assessing: Revision of Bloom's Taxonomy of Educational Objectives. Nova York, EUA: Addison Wesley Longman, 2001. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1qPygCRKdSAMWfcx_PNtuZ2P84fmpqaHo/view?usp=sharing
Vimos que é uma referência em inglês. Portanto, para facilitar, esturademos o conteúdo a partir do artigo "Taxonomia de Bloom" de Ferraz e Belhot.
Referência: FERRAZ, A. P. C. M.; BELHOT, R. V. Taxonomia de Bloom: revisão teórica e apresentação das adequações do instrumento para definição de objetivos instrucionais. Gest. Prod., São Paulo, v.17, n. 2, p. 421-431, 2010. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/12KZhxlmPERTcQho3YAEb5n3SjbOjMD3i/view?usp=sharing
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Em 1965, Benjamin Bloom (1913-1999), psicólogo americano, desenvolveu, junto a David Krathwohl e outros colaboradores, uma norma de classificação (taxonomia) para analisar, avaliar e elaborar objetivos educacionais. A teoria se popularizou enquanto ferramenta amplamente divulgada e aplicada em contextos educacionais em torno de todo o mundo. Conhecida como Taxonomia de Bloom, em 2001, passou por uma revisão liderada com Lorin Anderson e Krathwohl. No Brasil, a presença da Taxonomia de Bloom é marcante, principalmente na constituição da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e nos instrumentos de avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Originalmente, o trabalho de Bloom e colaboradores propõe que os objetivos educacionais possam ocorrer dentro de três domínios: o cognitivo, o afetivo e o psicomotor.
a) Domínio cognitivo: referente à formação de pensamentos e ideias.
b) Domínio afetivo: referente à formação de sentimentos, emoções, atitudes e costumes.
c) Domínio psicomotor: referente à formação de movimentos.
Isso quer dizer que o ser humano age no mundo com pensamentos, afetos e movimentos; e que essas três formas do agir podem se desenvolver por meio do ensino e da aprendizagem. Mas, apesar dessa diferenciação didática e instrumental, de nenhum modo admite-se que esses domínios da ação e da aprendizagem possam ocorrer de forma isolada, uns em relação aos outros. Pelo contrário, ao se desenvolver um domínio, se desenvolvem também os demais.
Bloom chegou a desenvolver manuais apenas para os dois primeiros domínios, de modo que taxonomias para o domínio psicomotor foram desenvolvidas por outros grupos. De qualquer modo, a proposta de maior impacto foi a Taxonomia de Bloom para o domínio cognitivo. Isso, talvez, tenha se dado pela supervalorização da racionalidade, característica de nosso tempo. As escolas e os sistemas educacionais focam no valor das ideias e, desse modo, preocupações com aprendizagens afetivas e psicomotoras acabam por ocorrer em segundo plano.
Para esta aula, a fim de compreendermos o conceito de objetivo educacional amplamente aplicado no contexto educacional brasileiro, focaremos na taxonomia do domínio cognitivo. Ademais, não abordaremos da Taxonomia de Bloom da maneira como foi originalmente proposta. Discutiremos aquela que, hoje, é a proposta de maior impacto nos sistemas educacionais: a Taxonomia de Bloom Revisada (TBR).
A TBR propõe a classificação de objetivos educacionais em duas dimensões: do conhecimento e do processo cognitivo. Portanto, sobre um assunto (conteúdo de conhecimento), é possível aprender a conhecê-lo de uma determinada dimensão e a processá-lo cognitivamente de certas maneiras. Desse modo, podemos dizer que um objetivo educacional do tipo cognitivo deve ser formado por um processo cognitivo relacionado a um conhecimento expresso em forma de dimensão e de conteúdo.
A dimensão do conhecimento pode ser:
a) Factual: conhecimento de termos e de elementos ou detalhes específicos do conteúdo.
b) Conceitual: conhecimento de classificações, categorias, princípios, generalizações, teorias, modelos e estruturas do conteúdo.
c) Procedimental: conhecimento de habilidades, algoritimos, técnicas, métodos e critérios de quando usar determinado procedimento do conteúdo.
d) Metacognitivo: conhecimento de estratégias, tarefas, condições contextuais para a cognição do conteúdo, em especial sobre a própria cognição.
A dimensão dos processos cognitivos, ou seja, os tipos de atividades mentais em que os conhecimentos podem estar envolvidos são:
a) Lembrar: recuperar conhecimento relevante da memória de longo prazo.
b) Compreender: construir significados sobre o conhecimento a partir da linguagem.
c) Aplicar: usar o conhecimento em dado procedimento.
d) Analisar: segmentar o conhecimento em partes e relações constitutivas.
e) Avaliar: fazer julgamentos e agregar valores ao conhecimento, com base em critérios e padrões.
f) Criar: agregar diferentes conhecimentos para que formem algo novo que seja coerente e funcional.
Uma observação importante sobre a TBR é que esses processos cognitivos estão organizados do de menor complexidade (lembrar) para o de maior complexidade (criar). Objetivos menos complexos exigem menos tarefas cognitivas para serem alcançados do que os com maior complexidade. Por exemplo, para que o sujeito aprenda a analisar algo, é necessário que ele tenha uma dominância inicial sobre conhecimentos a serem lembrados, a serem compreendidos e a serem aplicados no processo. O mesmo vale para avaliar que só pode ocorrer, com propriedade, no caso de que o sujeito saiba analisar o objeto a ser julgado; ao caso contrário denominamos "preconceito". Assim, compreendemos que os tipos processos cognitivos estabelecem uma certa interdependência uns com os outros.
Com tudo o que foi dito, compreendemos que um objetivo educacional pode ser classificado quanto à dimensão de conhecimento e à dimensão de processo cognitivo que o compõem. Para isso, Anderson e Krathwohl desenvolveram uma tabela taxonômica. Nessa tabela, as células interseccionais remetem à interrelação entre a dimensão do conhecimento (linhas) e o tipo de processo cognitivo (colunas) que se interrelacionam no objetivo educacional. Portanto, um objetivo educacional sempre estará classificado dentro de uma das células da tabela.
Suponhamos que somos educadores e precisamos desenvolver os objetivos das nossas aulas, dos nossos cursos ou das nossas escolas. Para isso, podemos fazer uso da TBR.
Vimos que objetivo educacional é a descrição de uma aprendizagem em termos de um processo cognitivo atuando sobre um conhecimento relacionado a um determinado conteúdo. Portanto, usamos essa fórmula para desenvolver os objetivos educacionais, bem como os termos da taxonomia.
Vejamos os exemplos:
a) Sou professor de ciências naturais e, na minha aula, pretendo que levar o estudante a "compreender que a física é a ciência que estuda a natureza e seus fenômenos em seus aspectos mais fundamentais". Repare que, entre aspas, está o objetivo educacional da aula. "Compreender" é o processo cognitivo, "física" é o conteúdo e o conhecimento é "conceitual", pois se trata de uma generalização, de uma explicação sobre o que é a física. Portanto, ao classificarmos esse objetivo com o uso da tabela taxonômica, seria um objetivo do tipo 2B ou "compreender conceitos".
b) Sou professor de biologia e penso que os estudantes precisam se lembrar dos nomes que se referem à classificação das interações ecológicas. Desse modo, meu objetivo é "Lembrar dos termos usados para classificar os tipos de interação ecológica existentes na natureza". Agora, o processo cognitivo é do mais simples (lembrar) e age sobre o conteúdo "intrações ecológicas" numa forma de conhecimento "factual". Portanto, ao classificarmos esse objetivo com o uso da tabela taxonômica, seria um objetivo do tipo 1A ou "lembrar fatos".
Vamos continuar a trabalhar com os exemplos anteriores. Agora, vamos supor que as aulas foram realizadas e é preciso avaliar a aprendizagem dos estudantes, para saber se os objetivos educacionais foram alcançados.
a) No caso do professor de ciências naturais, que mirou na compreensão do conceito de física, Anderson e Krathwohl indicam algumas ações do aprendiz que podem indicar que o aprendizado foi alcançado. No caso da compreenção, os autores indicam observar se os estudantes, em atividade, estão interpretando, exemplificando, classificando, resumindo, inferindo, comparando ou explicando. Assim sendo, vejamos algumas atividades em que o aprendizado dos estudantes pode se fazer evidente:
Interpretar e comparar diferentes definições de "física" a fim de selecionar as adequadas.
Comparar e selecionar exemplos do que é "física".
Interpretar e classificar as definições que são e que não são adequadas para "física".
Resumir a explicação dada sobre "o que é física" em um vídeo do assunto.
Inferir que características dado exemplo possui que lhe atributo de "física" enquanto ciência.
Explicar o conceito de "física" a colegas que não sabem, de modo que entendam.
Desse modo, as atividades avaliativas planejadas pelo professor devem estimular que os estudantes realizem essas ações, a fim de serem verificadas e avaliadas pelo professor.
b) No caso do professor de biologia, que vislumbrou a lembrança sobre termos que indicam interações ecológicas, Anderson e Krathwohl indicam que seja observado se os aprendizes estão reconhecendo ou recuperando. Exemplo:
Reconhecer os termos que se referem à classificação de interações ecológicas em um vídeo.
Listar (recuperar da memória) os termos que se referem à classificação das interações ecológica.
Há casos em que temos que seguir determinados objetivos educacionais que estão curricularizados. Esses objetivos, no entanto, nem sempre estão claros, fáceis de compreender o que se espera do ensino-aprendizagem, e muitas vezes são descritos de modo composto de mais de um objetivo educacional. Assim, para podermos percorrer esses objetivos com segurança, sabendo o que ensinar e como avaliar, precisamos interpretá-los e a TBR pode ser uma boa alternativa para dar essa solução.
Vejamos os exemplos a seguir, de análises que fizemos de habilidades indicadas na BNCC de ciências da natureza.
Podemos observar que, da habilidade proposta de ser alcançada para o sétimo ano do ensino fundamental, encontramos 5 objetivos educacionais a serem perseguidos. O termo "justificar", tido como um processo cognitivo, foi interpretado como podendo se referir a "explicar" ou a "avaliar"; o mesmo acontece com "discutir" que, conforme usamos em nossa cultura, pode se referir a "analisar" e a "avaliar".
Ao transpor para a tabela taxonômica, temos os seguintes tipos de objetivos educacionais sendo propostos:
Agora, vamos analisar outra habilidade. Dessa vez, uma proposta para o ensino médio:
Nessa análise, o termo considerando pode ser compreendido como um processo do tipo "considerar" que pode ser interpretado como "aplicar" na TBR. Ele está relacionado a três conhecimentos que puderam ser identificados, o que leva à identificação de três objetivos educacionais:
Como vemos, dessa habilidade pudemos fracionar 6 objetivos educacionais distribuídos na tabela taxonômica da seguinte forma:
Para revisarmos o que acabamos de aprender sobre a TBR e sua aplicação, principalmente no contexto da BNCC e do Inep, em propostas curriculares e de avaliações da aprendizagem e dos resultados educacionais, assista ao vídeo:
Agora, leiamos o artigo a seguir, para aprofundarmos nossa compreensão sobre a aplicação da TBR na análise de objetivos educacionais.
Referência: MEDEIROS, D. M. da. S. Compreendendo a função social da política curricular no Brasil a partir das áreas de Ciências da Natureza da BNCC. Revista de Ensino de Biologia da Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBEnBio), v. 16, p. 627-648, 2023. Disponível em: https://renbio.org.br/index.php/sbenbio/article/view/977.
A Taxonomia de Bloom, em especial a TBR, é um instrumento importante para o contexto educacional de nossa época. Interpretar, elaborar e avaliar objetivos educacionais é tarefa de todo professor, principalmente no contexto de propostas curriculares e da avaliação da aprendizagem e dos resultados educacionais. Apesar da TBR ser um dos instrumentos taxonômicos mais divulgados no Brasil, há outros que também merecem atenção pela qualidade e pela importância do trabalho em nível nacional e internacional.
Se baseie na tabela taxonômica:
1. No tempo estabelecido pelo professor, desenvolva um ou mais objetivos educacionais. Escolha ou identifique o conteúdo, a dimensão do conhecimento e o processo cognitivo relacionado ao objetivo desenvolvido. Siga os exemplos.
Exemplo 1: eu posso primeiro definir o tipo de objetivo e o conteúdo e, então, elaborar o objetivo educacional.
Tipo: 2C sobre conteúdo separação de resíduos sólidos.
Objetivo: "Explicar o motivo de separarmos resíduos orgânicos de inorgânicos".
Exemplo 2: bem como eu posso primeiro escrever o objetivo e depois classificá-lo conforme o tipo e o conteúdo.
Objetivo "Criar uma história sobre como pessoas se valem dos recursos do cerrado para viver".
Tipo: 6A sobre conteúdo biomas brasileiros.
2. Escreva o resultado de 1 objetivo desenvolvido (conforme instruções e exemplos) em um papel destacado, que será entregue ao professor.
3. O professor sorteia os objetivos desenvolvidos entre os colegas. Cada um deve receber e ler um objetivo que não é o seu, bem como a classificação que foi feita dele. Na ordem definida junto ao professor, cada um faz a análise e a avaliação do objetivo que recebeu, respondendo se está de acordo com a TBR.