A referência desta aula será o livro "História da Filosofia", da coleção "Os pensadores" e escrito por Bernadette Siqueira Abrão.
Referência: Abrão, B. S. História da Filosofia. Os pensadores. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1999.
As partes que estudaremos estarão disponíveis em: Idade Média / Renascimento / Renascentistas / Kant / Marx
Você pode baixar a apostila desta Aula 5 para consultar offline.
Para ajudar na compreensão do texto desta aula, recomendo que inicie por assistir ao vídeo a seguir, do canal de Youtube Epifania Experiência (https://www.youtube.com/@EpifaniaExperiencia). Trata-se de um vídeo de humor, leve e didático sobre a história da filosofia até a Revolução Francesa. Na aula anterior, assistimos até os 15:35 do vídeo. Agora, vamos assisti-lo até o final. O texto de nossa aula trará, no entanto, um teor diferente do vídeo. Por esse motivo, assistir e estudar o vídeo não substitui a leitura do texto próprio desta aula.
Na região da Grécia Antiga, inicia-se o Período Helenístico (séc. IV a I a.C) em que, através das conquistas de Alexandre o Grande, a cultura e a filosofia gregas são espalhadas e influenciam diversas outras culturas. Depois, por volta do séc. I a.C., com a dominação do Império Romano sobre a Grécia, os romanos absorvem a cultura grega e a reinterpretam sob a ótica da própria cultura. Assim, a mitologia e a filosofia romanas são fortemente influenciadas pelas gregas.
No século I d.C. surge e começa a se espalhar o cristianismo que, já no séc. IV, se torna a religião oficial do Império Romano. A partir desse momento, as culturas antigas começam a ser suprimidas e até proibidas pelo império. A mitologia grega se torna uma religião pagã e marginalizada. A filosofia, por sua vez, começa a ganhar aspectos cada vez mais servis ao cristianismo. Assim, os filósofos passam a se dedicar à teologia, à interpretação das escrituras sagradas e à relação entre fé e razão.
Por volta do séc. IV, o Império Romano começa a entrar em decadência por diversos problemas políticos, econômicos e militares. As invasões bárbaras levaram à formação de reinos germânicos, ao desenvolvimento do feudalismo e ao fortalecimento da Igreja Católica como uma instituição unificadora da Europa Ocidental. Tem-se caracterizado o fim da Idade Antiga e o início da Idade Média.
A Igreja foi a instituição de maior poder na Idade Média, com certa dominância sobre a nobreza e a realeza monarca. Por esse motivo, muito do que estava associado à cultura pagã, no passado, foi abolido da sociedade medieval. Parte da filosofia de Platão era, no entanto, bem-vinda ao pensamento da igreja a partir de uma interpretação que foi conhecida como neoplatonismo. A ideia de uma alma eterna e que pertencia a um mundo ascendente e perfeito (Deus) foi amplamente difundida. Contudo, a filosofia de Aristóteles, que fazia conhecer o mundo a partir dos sentidos, era fortemente rejeitada, pois distanciava as pessoas da fé.
Sob o domínio da igreja, a racionalização livre a partir de observações empíricas não era bem aceita, tanto que a medicina não evoluía sob um pretexto de que os corpos não podiam ser violados (dissecados) para estudos. Quem se aventurasse era considerado herege.
Na idade média, a escolástica era movimento educacional que visava a formação, o ensino, a partir da ortodoxia na interpretação de escrituras sagradas. Por isso gramática, retórica e dialética (linguagem) eram disciplinas anteriores a geometria, aritmética, astronomia e música (realidade das coisas). Essas sete disciplinas eram consideradas artes dignas do homem livre e estariam sempre a serviço da teologia.
Enquanto isso, no oriente, a cultura islâmica dos povos árabes vivia o Islã (submissão à vontade divina) muito mais como uma identidade cultural do que como uma religião. Diferente do cristianismo, os árabes eram tolerantes com outras culturas e religiões que não cultuassem ídolos. Isso permitiu uma maior abertura à cultura helênica e, principalmente, à filosofia aristotélica. As mais diferentes áreas de conhecimento eram estudadas numa compreensão de que conhecer racionalmente o mundo sensível aproxima o ser humano da sabedoria divina.
Avicena (ou Ibn Sina, 980-1037) foi um dos principais expoentes da filosofia e da ciência que se desenvolviam no mundo islâmico. Fez descobertas importantes no campo da medicina do olho e do coração. Muitas das descobertas nesse contexto foram, mais tarde, reinvindicadas pelo ociendente, que teve acesso a esse conjunto de conhecimentos a partir de bibliotecas e universidades de Córdoba (em Andaluzia, a parte muçulmana da Espanha). Foi onde nasceu Averróis (Ibn Ruchd, 1126-1198), outro expoente da filosofia islâmica e do aristotelismo da época.
Para saber sobre a cultura, da filosofia e da ciência na Idade Média e na cultura islâmica, recomendo assistir ao filme "O Físico", dirigido por Philipp Stölzl. Veja a resenha em Educação Pública.
As influências da filosofia islâmica chegam à escolástica, principalmente por meio de Tomás de Aquino, que estudou e lecionou na Universidade de Paris. Nessa época, as universidades (onde se realizavam os princípios da escolástica) tinham certo prestígio e autonomia concedida pelo Papa para assegurar supremacia diante dos poderes locais. Nesse contexto, a chegada das obras de Aristóteles levanta suspeitas sobre o pensamento livre das universidades, que acolhem bem essas obras. A igreja, por outro lado, passa a condenar diversos trechos.
Santo Tomás se defende ao assimilar a filosofia aristotélica justificando sua importância para a teologia, no sentido de provar a existência de Deus. Por esse motivo, a igreja reconhece seus esforços e o canoniza no século XIX, tomando seu pensamento como doutrina oficial do catolicismo. Tomás dizia que o mundo sensível, tomado pelos sentidos, é o ponto de partida para provar que Deus existe.
Os escolásticos, como Tomás, subvertem a ideia original e despersonificada de Deus, concebida por Aristóteles, e a desenvolvem para se equivaler ao Deus da Igreja Católica. Bem como Aristóteles, Tomás concorda que toda existência tem uma causa e toma como absurda a ideia de causas infinitas para as coisas. Assim, uma prova de que Deus existe (dentre tantas enumeradas por Tomás) é a de que uma causa primeira existe e ela seria Deus. Outra prova é o fato de os seres vivos sempre encontrarem uma finalidade para suas existências mesmo sem possuírem consciência disso, o que provaria que há uma inteligência conhecedora e organizadora do mundo de acordo com sua finalidade.
Tomás de Aquino levava uma vida dedicada ao ensino escolástico e umas das defesas teológicas mais importantes nesse contexto foi sobre o homem como dono de seus atos. Contemporânea da Inquisição, a filosofia de Tomás tinha o propósito de demonstrar que o que as pessoas fazem seria algo que vem da escolha autônoma delas, e não de Deus. Para isso, conduz um pensamento sobre a matéria, o espírito e a alma. A alma seria algo individual, essencial e imortal de todo ser vivente e que o faz ser o que é. Essa alma também é dotada de capacidades que são relativas ao grau de evolução da vida. Essas capacidades conferem a possibilidade da matéria se transformar e, portanto, ser potência. As plantas, por exemplo, só têm a capacidade de se nutrirem. Os animais, por outro lado, além de se nutrirem, têm a capacidade de formar um conhecimento sensível, respondendo àquilo que é concreto. Já, o ser humano, no terceiro grau de evolução nesta escala, é capaz de compreender o que é abstrato, ou seja, de formar um conhecimento intelectual do mundo.
Com Tomás, compreendemos que a abstração humana torna as pessoas capazes de travar ações com a totalidade do real. Esse conjunto específico de capacidades é o que forma o espírito. Portanto, na escala de evolução da vida, o ser humano é o único dotado de um espírito formado pelas capacidades de inteligência (abstrair a forma das coisas sensíveis), vontade (apetite intelectual) e memória (armazenamento de conhecimentos abstratos). A aquisição individual de conhecimentos que todo ser humano é capaz de fazer leva o nome de "descoberta". "Aprendizagem", para Tomás, seria um processo de descoberta pelo "ensino". O processo de descoberta ou de aprendizagem seria, então, a passagem de uma composição material inicial para uma final por meio da realização espiritual da inteligência, da vontade e da memória. Essa realização, contudo, faz parte apenas de um intelecto possível; a alma (intelecto agente), contudo, é transcendente e necessária.
O ser é o único responsável pelas realizações de seu espírito e, desse modo, cabe ao poder eclesiástico impor limites os corpos mal transformados, que não seguissem a doutrina cristã e, portanto, pecassem. Outro desdobramento disso está na ideia de natureza imutável de cada ser, em que a condição social do sujeito não pode se alterar ao longo da vida, visto que está relacionada à sua forma essencial (alma). Posteriormente, seguiu-se à "Era de Caça às Bruxas".
O aumento da desconfiança em relação à liberdade de razão nas universidades faz com que o Papa retome o controle delas a partir da introdução de professores representantes das ordens de Franciscanos e Dominicanos. O propósito era o de salvaguardar a ortodoxia contra os praticantes da dialética. Porém, na afastada Inglaterra, o professor dominicano Grosseteste (1170-1253), interpretando literalmente a noção de "luz divina", passa a realizar investigações científicas sobre a óptica. Nesse interim, seu discípulo, Roger Bacon (1214-1294), propõe que as provas da experiência constituem a melhor forma de conhecimento, sendo um precursor da ideia moderna de ciência experimental.
A contramedida veio por parte de Duns Scot, professor dominicano em Oxford e Paris. Argumentou que a filosofia metafísica (que trata do ser enquanto ser) não pode tomar como ponto de partida o mundo sensível. Assim, não seriam as coisas mundanas que evidenciariam a existência de Deus, mas, sim, que Deus serviria para evidenciar as propriedades das coisas que nossos sentidos percebem. Na mesma linha, segue Guilherme de Ockham (1300-1350), franciscano de Oxford. Para ele, a verdade última das coisas seria inacessível ao nosso conhecimento, que sempre emprega significados às coisas por meio das palavras. Portanto, seria mais adequado que cuidássemos das nossas crenças, da nossa fé, antes de darmos conta do mundo que percebemos pelos sentidos.
Essa glorificação da fé, no entanto, soou ambígua. Pois, ao mesmo tempo que a igreja encontrava meios para defender a religião pela razão, atacava a razão e se distanciava cada vez mais da filosofia e das ciências. Com o desenvolvimento desse estado de coisas, a teologia deixa de ser enunciada como ciência das ciências, enquanto a razão e a filosofia começam a se libertar da tarefa teológica.
Injustiças, doenças e guerras constantes assolavam a população feudal da Europa na Idade Média. No contexto desses problemas, a igreja perde sua força unificadora do mundo pela fé e os monarcas centralizam cada vez mais o poder. Assim, abre-se espaço para que sábios, cientístas e místicos de diferentes espécies auxiliem as cortes na resolução de seus problemas. O pensamento mágico se une ao pensamento científico que surgia, o que deu força ao desenvolvimento da alquimia e da astrologia. O ser humano começa a dar cada vez mais valor ao seu próprio poder espiritual e racional, levando ao renascimento da filosofia, dos valores e da cultura da antiguidade clássica greco-romana. O nome desse movimento histórico, filosófico e cultural é Renascimento (ou Renascença), que marca o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna.
Para saber mais detalhes sobre o Renascimento, recomendo esse vídeo do canal de Youtube "Débora Aladim":
No começo da Renascença, as fortificações construídas para a defesa dos reinados, também conhecidas como burgos, abrigavam e davam segurança a comerciantes, que ficaram conhecidos como burgueses. Com o desenvolvimento das rotas comerciais entre Europa, Ásia e África, os burgueses passaram a enriquecer e a financiar as ciências e as artes que, em contrapartida, lhes devolviam a técnica e o prestígio necessários para aumentarem a produção, desenvolverem o comércio de bens de consumo e ganharem influência política. Num primeiro momento, essa burguesia apoiou financeiramente a realeza em detrimento da nobreza e do clero, enfraquecendo o sistema feudal. A moeda passou a valer mais do que as terras e os nobres passaram, então, a explorar financeiramente seus domínios, no intuito de produzir e de acumular riquezas. As rotas comerciais passaram se ser disputadas e a Inglaterra começa a adotar políticas protecionistas em relação à sua economia de mercado. Tem-se o início do sistema capitalista de produção.
Nesse contexto, o mundo, para o ser humano, não parece mais unificado por um sistema único de valores ou de crenças. Seria, então, tarefa desse ser humano, reunificar o mundo a partir de uma nova forma de conhecimento. Iniciam-se os movimentos renascentistas conhecidos como racionalismo e empirismo, que amadurecem ao ponto de constituírem o método científico moderno. Sem uma referência onde possa seguramente se apoiar, para o renascentista, o mundo e a razão são coisas distintas, que só se relacionam por meio da representação. A matemática seria o grande modelo da representação que a razão faz do mundo, mas que, em sua perfeição, existe por si só, independente desse mundo. Por esse motivo, a razão vem antes do mundo, que ocorre somente subordinado às capacidades da razão. Por isso, a razão é sujeito do conhecimento (em latim, subjectum, aquilo que subsiste, que é fundamento) e o mundo é objeto do conhecimento (objectum, aquilo que está colocado diante de algo que, no caso, é a razão, o sujeito).
Abrão, 1999, p. 188.
Francis Bacon (1561-1626) diz que ideias pré-concebidas induzem o ser humano ao erro. A essas ideias, Bacon dá o nome de ídolos. Mitos, crenças e, até mesmo, os sentidos, são representações desses ídolos. Desse modo, é necessário que o conhecimento correto seja formado pela observação direta (empírica) dos fenômenos; mas isso não basta! Essa observação precisa ser rigorosa, com critérios.
Ídolos da tribo: imperfeições do intelecto e dos sentidos.
Ídolos da caverna: tomar o mundo particular como verdadeira realidade.
Ídolos do foro: problemas de comunicação, de acordos em torno de significados.
Ídolos do teatro: doutrinas filosóficas e religiosas.
Bacon chega a propor um método experimental pelo qual a observação empírica poderia ter o rigor necessário às ciências. Para o filósofo, o exame detalhado dos diversos casos particulares e a relação entre eles é o que leva ao conhecimento científico. A esse processo denominou-se indução (raciocínio indutivo). Com o raciocínio indutivo, Bacon argumenta, é possível alcançar um conhecimento capaz de utilizar as forças da natureza em proveito do ser humano. Desse modo:
Nicolau Copérnico (1473-1543) propôs que o acúmulo de observações dos astros não podia mais sustentar a ideia geocêntrica e usou a matemática para comprovar a razão pela qual o Sol seria o centro em torno de que a Terra se moveria. Posteriormente, Johannes Kepler (1571-1630) sustentou o heliocentrismo matematicamente, propondo o movimento elíptico em vez do movimento circular, para os astros. Kepler também propôs que o Sol seria o responsável por mover os outros astros ao seu redor, o que posteriormente vai embasar a lei de gravitação dos corpos, de Newton. Essa era a primeira vez que a matemática estava sendo racionalmente utilizada para a compreensão da natureza.
Galileu Galilei (1564-1642) é quem consegue comprovar, empiricamente, a teoria geocêntrica de Copérnico e os cálculos de Kepler a partir do aperfeiçoamento da luneta, que acabara de ser inventada na Holanda. A partir de 1610, Galileu dedica-se a observar os céus todas as noites e faz diversas descobertas, como sobre a composição da Via Lactea ser de várias estrelas, sobre a superfície da Lua ser montanhosa, sobre os satélites de Júpiter, os anéis de Saturno, as fases de Vênus e as manchas solares.
De qualquer modo, Galileu também era um racionalista ao admitir que não é necessário se fazer observações para propor certas teorias e, quando se faz, a racionalidade antecede à observação. Ao defender a matemática como instrumento de descrição da natureza, defende que o mundo só pode ser um espaço homogêneo e indistinto. Galileu propõe a Lei da Inércia a partir de uma representação do mundo "como se fosse", com um experimento mental. A noção de movimento muda e Galileu o define como sendo o "deslocamento de uma coisa em relação a outra". Assim, Galileu desbanca diversas ideias do empirismo aristotélico, como a concepção de que corpos pesados descem e leves sobem, ou como a ideia de haver dois mundos, um sublunar e outro supralunar, que seriam compostos e se comportariam de forma distinta. Diferente de Aristóteles (que acreditava que os sentidos precediam à razão), na ciência moderna, a observação empírica "significa eliminar dos objetos todas as suas qualidades sensíveis, observáveis, empíricas, reduzindo-os a relações quantitativas. O mundo se transforma em número" (Abrão, 1999, p. 192).
Descartes foi um dos mais importantes racionalistas. Questionou as descobertas de Galileu e, com isso, questionou todos os tipos de descoberta. Descartes era afetado por teorias antagônicas sobre objetos equivalentes. Se dois sábios são igualmente convincentes sobre uma mesma coisa, mas suas opiniões são incompatíveis, como saber quem estaria certo? Nesse tocante, Descartes operou a partir da dúvida levada ao extremo, estratégia filosófica que ficou conhecida como ceticismo hiperbólico.
Mesmo que operássemos perfeitamente com a razão e os sentidos, ainda assim, como saber se não estamos dentro de um sonho, em que tudo parece real até que se desperte? E se houver um deus malicioso nos enganando, provocando ilusões? Enfim, todos os nossos conhecimentos são colocados em dúvida por meio do ceticismo hiperbólico. Descartes operou nesse sentido até que não sobrasse mais nada a se duvidar. Porém, algo restou, que foi a própria dúvida. Duvidar da existência de todas as coisas é possível, com exceção da existência da própria dúvida, que continua a existir. Portanto, a dúvida seria uma ideia clara e distinta, pois não há razão para se duvidar de sua existência e ela se distingui de todas as outras coisas, sobre as quais a dúvida continua a existir.
Dúvida é pensamento (cogito, em latim). Se o pensamento existe, então também existe algo que pensa. Algo que pensa sou eu! Portanto, a existência do "eu pensante", da "coisa pensante" (res cogitans, em latim) é outra ideia clara e distinta. "Se penso, logo existo": essa foi uma das mais importantes conclusões de Descartes.
A coisa pensante é, no entanto, finita. O pensamento é limitado, não alcança tudo que existe. Por esse motivo, baseando-se no princípio aquiniano da causa original (de que as coisas finitas devem ter uma causa primeira, infinita, que seria Deus). Como a ideia de um Deus maligno se confunde com a ideia clara de um Deus justo, essa primeira não seria uma ideia distinta e, portanto, não existe o tal Deus maligno. Desse modo, Descartes passa a compreender a ideia de um Deus transcendente, infinito e justo como uma ideia clara e distinta. É a coisa infinita (res infinita, em latim).
Se o cogito é causado por Deus, infinito e perfeito, suas imperfeições não podem estar relacionadas a esse Deus. Desse modo, as imperfeições do cogito são referentes ao acesso que ele tem aos fenômenos da natureza. Esse acesso depende, exclusivamente, dos sentidos do corpo. Aliás, aquilo que o cogito acessa de fato existe, pois Deus garantiria essa possibilidade de percebê-los pelo cogito. Essas coisas são, no entanto, diferentes do cogito, pois têm extensões mensuráveis (profundidade, altura, largura); são coisas extensas (res extensa, em latim). O corpo e os sentidos, que garantem o acesso do cogito aos fenômenos, fazem parte desse mundo com extensão. Bem como proposto por Platão, esses exemplares da natureza, a que nossa razão tem acesso, são formas imperfeitas. Portanto, a imperfeição do corpo e dos sentidos seria o que provoca os limites e os erros do pensamento (algo que Francis Bacon já havia proposto na forma de ídolo).
Com esse encadeamento de pensamentos lógicos, Descartes propõe que a natureza (extensa) seja objeto do conhecimento, enquanto o cogito, o pensamento ou a coisa pensante seria o sujeito do conhecimento. Por meio da representação do pensamento, a coisa extensa é transformada em coisa pensada. Desse modo, a filosofia cartesiana culminou na concepção de um dualismo entre corpo (coisa extensa) e espírito (coisa pensante), estabelecendo Deus (coisa infinita) como causa primeira de todas as coisas.
De qualquer modo, não podemos nos esquecer das imperfeições do cogito e, desse modo, é possível conceber que as representações da natureza podem ser incompletas ou enganosas. Por esse motivo, Descartes desenvolveu princípios metodológicos para se alcançar ideias claras e distintas por meio da representação da natureza pelo pensamento. Trata-se dos Princípios Analíticos Cartesianos:
Da dúvida e da evidência: os fenômenos devem ser colocados em suspeição, sendo colhidas evidências sobre suas existências.
Da decomposição e análise: o fenômeno estudado precisa ser decomposto em partes inteligíveis e passíveis de medição e comparação.
Da composição e síntese: os conhecimentos sobre as partes devem ser relativizados uns aos outros para formar uma representação teórica do todo.
Da enumeração e verificação: o conhecimento produzido deve ser sistematicamente apresentado, de modo que seja passível de verificação.
A partir de Descarte, a ciência moderna passa a seguir esses ideais analíticos. Compreende-se que o objeto de conhecimento da ciência só pode ser o mundo extenso (a natureza), de modo que o cogito e a coisa pensante seriam objeto de estudo da metafísica. Enquanto isso, as faculdades da razão sendo aplicadas à compreensão de Deus, da coisa infinita, seria objeto exclusivo da teologia. Nesse contexto, a realização total dos Princípios Analíticos Cartesianos, bem como das outras formas de racionalismo e de empirismo da época, vem a ser obra de Isaac Newton (1643-1727), com a realização de observações metodologicamente rigorosas e de cálculos matemáticos para o estabelecimento das Leis do Movimento e da Gravitação Universal, estabelecendo as bases da mecânica clássica.
Com todas as contribuições do Renascimento, sucedeu-se a outro movimento, o Iluminista, que ocorreu durante o século XVIII. O termo, Iluminismo, tem significado de "século das luzes". Com a supervalorização do racionalismo e do empirismo, o ser humano se vê capaz de colocar toda realidade sob perspectiva crítica, duvidosa, questionadora... Enfim, sob as luzes do exame racional. Nesse contexto, as verdades transmitidas pelas autoridades começam a perder suas forças, passando a ser questionadas e, em muitos casos, negadas. Criticar seria, portanto, "colocar em crise". Krisis, de origem grega, significa "distinguir, separar e decidir".
Um dos primeiros e mais importantes filósofos desse período foi John Locke (1632-1704), considerado o pai do liberalismo. De origem burguesa, Locke propunha que os seres humanos tivessem direitos naturais à vida, à liberdade e à propriedade. Assim, defendia a separação entre igreja e estado, bem como foi contra o absolutismo propondo que o estado se originasse de um acordo, um contrato social, entre os indivíduos pertencentes à sociedade. De fato, Locke estava atento ao poder da burguesia e promovendo sua liberdade econômica e política.
Assim como Locke, outros pensadores burgueses também tiveram grande influência no Iluminismo, como é o caso de Montesquieu, que foi quem propôs um estado formado pela separação de três poderes: o legislativo, o executivo e o judiciário. De modo geral, podemos dizer que o espírito geral do Iluminismo era o de usar da ciência moderna, da razão e da experimentação, para promover o progresso. tal progresso, contudo, pode ser entendido como o bem da burguesia e de seus interesses. Liberdade e direito à propriedade nunca foram ideais pensados para toda classe ou população humana. Alimentando-se dos ideais calvinistas, os primeiros liberais se valem da máxima de que a prosperidade material poderia ser vista como uma benção pela glorificação de Deus; onde o sucesso econômico e a eficiência no trabalho eram altamente valorizados.
Com a burguesia querendo se promover, seus ideais eram de alcançar o status de nobreza, inclusive, assumindo seus papéis políticos. Por isso, desde o Renascimento, os princípios escolásticos universitários passaram a dar lugar aos colégios e à procura por uma educação mais básica focada nas humanidades e, principalmente, na formação da etiqueta. Os colégios serviam ao atendimento, principalmente, da aristocracia e de jovens de famílias burguesas ricas que, para serem aceitos pela corte, deviam saber se comportar dessa maneira. Muitos burgueses, inclusive, compravam títulos de nobreza e financiavam artistas para retratá-los e deixá-los famosos.
Locke também coloca a razão em crise. Desenvolve um pensamento antirracionalista, ao dizer que o ser humano nasce como uma "tábula rasa" e que a experiência empírica, indutiva, seria a única maneira de conhecer o mundo. Nesse contexto, entra em cena Kant, que desenvolve a "Crítica da Razão Pura" e questiona tanto o racionalismo quanto o ceticismo e o dogmatismo. Propõe, desse modo, um exame rigoroso sobre o sujeito do conhecimento e suas possibilidades racionais primeiras, anteriores ao seu contato com a natureza, com os objetos do conhecimento. Kant funda, então, o campo da investigação transcendental.
Assim como para Thomás de Aquino, para Kant, somos dotados de um espírito com capacidades. Para Kant, essas capacidades realiadas por faculdades de sensibilidade, de entendimento, de vontade e de julgamento. Quanto aos juízos que fazemos do mundo, eles podem ser a priori (antecedem a observações) ou a posteriori (a partir de observações); também podem ser analíticos (quando apenas descrevem sem acrescentar novos conhecimentos) e sintéticos (quando elaboram algo novo, para além do evidente imediato).
Faculdades:
Sensibilidade: capacidade (receptividade) de obter representações mediante o modo como somos afetados por objetos: as sensações. Essas representações se dão de modo imediato pela intuição.
Entendimento: capacidade de pensar as representações a partir de conceitos, de categorias do entendimento. Também é a capacidade de construir conceitos a priori, independende de qualquer observação empírica; como é o caso do conceito de triângulo, construído a partir da intuição do espaço.
Vontade: capacidade de desejar e agir conforme os desejos. Pode-se agir por dever ou por interesse pessoal. Kant defende que a boa vontade ocorre por dever e dentro de imperatívos categóricos, ou seja, alinhado àquilo que queremos que outras pessoas também desejem e façam.
Julgamento: capacidade de definir se as coisas são bonitas ou feias, prazerosas ou não... Enfim, os juízos podem ser estéticos, bem como teleológicos e reflexionantes. Teleológicos, ao definirmos a função das coisas pelos seus fins e objetivos. Reflexionantes quando, ao julgar, estabelecemos critérios, pontos de referência, a partir de casos particulares.
Juízos:
Analíticos a priori: não dependem de observação e não acrescentam nada novo (intuição). As ideias de não contradição, de espaço e de tempo são exemplos de conhecimentos formados pelo juízo a priori.
Sintéticos a priori: não dependem de observação e acrescentam algo novo (matemática).
Analíticos a posteriori: dependem de observação e não acrescentam nada de novo, pois o predicado já está contido no sujeito (definição). Ex.: "o corpo é extenso". Nesse caso, corpo já é um objeto tido com extensão, antes que a sentença seja proferida.
Sintéticos a posteriori: dependem de observação e acrescentam algo novo (ciência). Ex.: "o corpo é pesado". Nesse caso, o fato de ser pesado é uma informação que não está contida no significado original de "corpo".
Antes que os objetos nos afetem, a razão é vazia. Para Kant:
[...] os juízos a priori "são receptáculos, ou seja, puras formas, que, previamente, não contêm nada. O conteúdo (ou a matéria), isto é, aquilo que corresponde à sensação, só pode provir a posteriori, e é ordenado segundo certas relações: as do espaço e do tempo. Por isso, o objeto só pode ser intuído no tempo e no espaço e constitui-se naquilo que Kant denomina fenômeno, isto é, 'objeto indeterminado de uma intuição empírica'".
O fenômeno se torna objeto da experiência na medida em que é entendido a partir de conceitos, de categorias. A totalidade dos objetos do conhecimento recebe o nome de natureza! As ciências da natureza determinam, a priori, seus próprios objetos, sobre os quais formula juízos universais e necessários (as teorias). A física, por exemplo, podemos dizer ser a ciência que estuda as qualidades e possibilidades da matéria; enquanto a biologia define, como seu objeto de conhecimento, o fenômeno a que categorizamos como "vida".
Os conceitos e as categorias são subsunçores da coisa em si, da realidade que existe para além da nossa percepção, a que Kant denomina númeno (do grego, noumenom, "aquilo que é pensado, concebido"); em oposição a fenômeno (do grego, phainómenon), aquilo que aparece à intuição. Kant argumenta que númeno (a coisa em si) não pode ser conhecida, pois está aquém de toda a experiência possível. "Não seriam, no entanto, possíveis os juízos sintéticos a priori sobre a coisa em si? Essa é a pretensão da metafísica" (Abrão, 1999, p. 314).
Kant critica o ceticismo e o dogmatismo, em que, afirma o autor, a metafísica se transformou. O cético parte da razão pura para duvidar de tudo que é possível, enquanto o dogmático possui uma razão vazia, enganosa, pois ausente de objeto da experiência, não podendo realizar juízos a posteriori. Por esse motivo, Kant critica a metafísica como uma forma de ciência. Com isso, ajuda a definir que ciência se trata apenas daquilo que depende da observação, do fenômeno. Em todo caso, assume que a razão não tem as mesmas necessidades do conhecimento. Antes, suas necessidades são da esfera prática e a metafísica, de certa forma, pode propor normas de conduta. Desse modo, tanto a metafísica quanto a ciência poderiam satisfazer as necessidades da razão e podem ser válidas desde que possam propor certas regras válidas ao progresso social.
O Iluminismo marca a passagem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea. Nesta última, em que ainda vivemos, a ciência moderna passa a ser cada vez mais valorizada e financiada pelas elites econômicas. A burguesia, em ascensão, promove diversas revoluções para obter a liberdade que considera ser sua de direito. Os reis, a nobreza e a igreja perdem o poder que antes detinham. Os estados constitucionais começam a ser fundados e estruturados pelos novos meios de produção. Com o avanço da técnica, a burguesia passa a construir fábricas e a empregar, de forma exploratória, a mão de obra camponesa. Nas propriedades, os senhores de terra passavam a explorar cada vez mais os campesinos para aumentar a produção de matéria prima que alimentaria os meios urbanos e os centros comerciais. Tem-se o fim do sistema feudal e o início do sistema capitalista.
No sistema capitalista, as elites econômicas buscam seu próprio progresso e vêm, na ciência e na educação, possibilidades para tal. As áreas do conhecimento se esforçam, então, para serem científicas. No século XIX, surgem os campos científicos da sociologia e da psicologia, bem como outros. Já no século XX, os campos científicos sofrem uma multiplicação exponencial, com incontáveis áreas de pesquisa. Os colégios e as universidade, então, se tornam instituições privilegiadas para o ensino das ciências e para a formação para o mundo do trabalho. Desse modo, a burguesia desenvolve um sistema educacional que corresponde às necessidades do capital. Para isso, promovem a massificação da educação, sendo levada a todas as pessoas como um direito e dever.
Em contramedida ao capitalismo, socialistas e comunistas compreendem os limites desse novo sistema de produção e o combatem, principalmente embasados por teorias e manifestos desenvolvidos por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Na compreensão comunista, a nova forma de estado constitucional seria um instrumento de exploração da burguesia sobre a classe trabalhadora. Desse modo, os comunistas propõem que o estado deva, em algum momento, se tornar obsoleto, para o fim da exploração do homem pelo homem. Nesse contexto, surge a proposta da educação popular: uma maneira de educar para a transformação social das relações humanas a partir da realidade opressora das classes populares.
A educação liberal e a educação popular, também conhecida como histórico-crítica, se tensionam durante o século XX e início do século XXI, principalmente em países de terceiro mundo. De qualquer modo, o aperfeiçoamento educacional como uma atividade séria, a fim de formar indivíduos a partir de determinadas funções sociais do ensino, faz promover uma porção de ciências da educação. Assim, durante o século XX, surgem diversas vertentes filosóficas e científicas da aprendizagem e do ensino, tais como são as hoje conhecidas como behavioristas, cognitivistas e humanistas. Os sistemas educacionais vão se transformando na medida do surgemento e da aplicação das concepções filosóficas, das teorias científicas e do desenvolvimento tecnológico da contemporaneidade.
Ao conhecer a história do pensamento, percebemos que muitos termos, conceitos e teorias que aplicamos, hoje, na educação, estão relacionados a construções filosóficas do passado. Podemos perceber que, no fim das contas, temos muita pouca compreensão do significado do vocabulário educacional. Acabamos por banalizar determinados conceitos sem nos questionarmos sobre o que, de fato, eles querem dizer. Afinal, estamos aplicando os termos, os conceitos e a teorias educacionais da maneira historicamente adequada?
Em um tempo definido junto ao professor, busque, neste material didático, por termos, conceitos ou teorias de que você já ouvir falar no contexto da educação contemporânea. Faça uma lista com esses elementos e marque a posição do texto em que você os coletou.
Exemplo:
a) Colégio: último parágrafo da seção "Iluminismo".
b) Matéria: segundo parágrafo da seção sobre Kant, depois da lista.
Agora, observe sua lista e reflita: em que situação educacional você lembra ter visto esses elementos? O que eles significavam nessas situações?
Exemplo
a) Colégio: sinônimo de escola de Educação Básica, no Brasil.
b) Matéria: aquilo sobre o que o professor ensina e o aluno aprende.
Volte ao texto e observe se os significados que você conhecia, de cada elemento, se parecem com as significações históricas renascentistas e iluministas. Depois responda: Qual é o significado histórico do elemento? Em que ele se parece com o significado que você conhecia?
Exemplo:
a) Colégio: a forma institucional de ensino para jovens em humanidades, principalmente aos burgueses que queriam obter o grau instrucional e comportamental da nobreza para, assim, ocupar seus espaços. Se parece com o sentido de hoje em dia, na medida em que corresponde a uma educação de base, para jovens em formação cidadã e que querem ocupar determinadas posições sociais.
b) Matéria: para Kant, matéria é aquilo que corresponde à sensação de alguma coisa no espaço e no tempo. Se parece com o sentido de hoje em dia, pois, o que o professor ensina e o que o aluno aprende sempre é sobre algo que existe, que tem uma materialidade que pode ser representada no espaço e no tempo. O ensino promove o desenvolvimento das sensações, da matéria.
Ao final, o professor promoverá uma discussão com a turma sobre os resultados da atividade. Tente se apropriar dos seus resultados para colaborar nessa discussão.