Esta aula toma, como referência, a obra "Saberes docentes e formação profissional" de Maurice Tardif.
Referência: TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
Estudaremos principalmente a introdução e o Capítulo 1.
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Na introdução do trabalho, Tardif inicia dizendo sobre a questão do saber dos professores ter feito surgir, a partir de 1980, dezenas de milhares de pesquisas no mundo anglo-saxão e, mais recentemente, na Europa. Para o autor, o saber é sempre o saber de alguém que trabalha alguma coisa no intuito de realizar um objetivo qualquer.
O saber docente é social, embora sua existência dependa dos professores (mas não somente deles) enquanto atores individuais empenhados numa prática. Nesse contexto, o mentalismo é um perigo na compreensão do saber docente; consiste em reduzir o saber, exclusiva ou principalmente, a processos mentais (representações, crenças, imagens, processamento de informações, esquemas, etc.) cujo suporte é a atividade cognitiva dos indivíduos. No entanto, as representações ou práticas de um professor específico, por mais originais que sejam, ganham sentido somente quando colocadas em destaque em relação a uma situação coletiva de trabalho.
O saber dos professores é social porque sua posse e utilização repousam sobre todo um sistema que vem garantir a sua legitimidade e orientar sua definição. Desse modo, o que um “professor deve saber ensinar” não constitui, acima de tudo, um problema cognitivo ou epistemológico, mas sim uma questão social, tal como mostra a história da profissão docente. Também é social porque seus próprios objetos são objetos sociais, isto é, práticas sociais.
O que os professores ensinam (os “saberes a serem ensinados”) e sua maneira de ensinar (o “saber-ensinar”) evoluem com o tempo e as mudanças sociais. O saber dos professores (tanto os saberes a serem ensinados quanto o saber-ensinar) está assentado naquilo que Bourdieu chama de arbitrário cultural: ele não se baseia em nenhuma ciência, em nenhuma lógica, em nenhuma evidência natural. Noutras palavras, a Pedagogia, a Didática, a Aprendizagem e o Ensino são construções sociais cujos conteúdos, formas e modalidades dependem intimamente da história de uma sociedade, de sua cultura legítima e de suas culturas (técnicas, humanistas, científicas, populares, etc.), de seus poderes e contrapoderes, das hierarquias que predominam na educação formal e informal, etc.
O saber docente também é social por ser adquirido no contexto de uma socialização profissional. No entanto, o sociologismo (outro perigo para a compreensão do que os professores sabem) tende a eliminar totalmente a contribuição dos atores na construção concreta do saber, tratando-o como uma produção social em si mesmo e por si mesmo, produção essa independente dos contextos de trabalho dos professores subordinada, antes de mais nada, a mecanismos sociais, a forças sociais quase sempre exteriores à escola, tais como as ideologias pedagógicas, as lutas profissionais, a imposição e a inculcação da cultura dominante, a reprodução da ordem simbólica, etc.
O saber dos professores é profundamente social e é, ao mesmo tempo, o saber dos atores individuais que o possuem e o incorporam à sua prática profissional para a ela adaptá-lo e para transformá-lo. O saber dos professores depende, por um lado, das condições concretas nas quais o trabalho deles se realiza e, por outro, da personalidade e da experiência profissional dos próprios professores. As relações dos professores com os saberes nunca são relações estritamente cognitivas: são relações mediadas pelo trabalho que lhes fornece princípios para enfrentar e solucionar situações cotidianas.
Outra compreensão importante é a de que o saber dos professores é plural e também temporal, uma vez que, como foi dito anteriormente, é adquirido no contexto de uma história de vida e de uma carreira profissional. Muitas pesquisas, por exemplo, mostram que esse saber herdado da experiência escolar anterior é muito forte, que ele persiste através do tempo e que a formação universitária não consegue transformá-lo nem muito menos abalá-lo.
No contexto da profissão docente, quanto menos utilizável no trabalho é um saber, menos valor profissional parece ter. A hipótese de Tardif é que o trabalho interativo (como é o trabalho do professor) e, por conseguinte, os saberes mobilizados pelos trabalhadores da interação não podem se deixar pensar a partir dos modelos dominantes do trabalho material, sejam eles oriundos da tradição marxista ou da economia liberal. De fato, a organização escolar foi idealizada a partir das organizações industriais (tratamento de massa e em série, divisão extrema do trabalho, especialização, etc.) e o ensino, como uma forma de trabalho técnico susceptível de ser racionalizado por meio de abordagens técnico-industriais típicas, como o behaviorismo clássico, por exemplo, mas também, atualmente, através de concepções tecnológicas da comunicação que servem de suporte às novas tecnologias da informação.
No sentido da realização de uma profissão docente que não esteja subjugada a modelos dominantes, as reformas educacionais mais recentes veem expressando a vontade de encontrar, nos cursos de formação de professores, uma nova articulação e um novo equilíbrio entre os conhecimentos produzidos pelas universidades a respeito do ensino e os saberes desenvolvidos pelos professores em suas práticas cotidianas. Até agora, a formação para o magistério esteve dominada sobretudo pelos conhecimentos disciplinares, conhecimentos esses produzidos geralmente numa redoma de vidro, sem nenhuma conexão com a ação profissional, devendo, em seguida, serem aplicados na prática por meio de estágios ou de outras atividades do gênero. Essa visão disciplinar e aplicacionista da formação profissional não tem mais sentido hoje em dia, não somente no campo do ensino, mas também nos outros setores profissionais. É essa ideia que Tardif defende nos fios condutores de seu livro.
Para estudar o Capítulo 1 da obra de Tardif, vamos recorrer a diversas abstrações. A primeira delas é sobre a docência e o docente. Vamos compreender da seguinte maneira:
a) Docência: o ato ou a prática de ensinar;
b) Docente: aquele que ensina, pessoa que se dedica à docência;
c) Magistério: atividade profissional da docência, do professor;
d) Professor: docente profissional.
Vemos, portanto, que professor é docente, pois se dedica profissionalmente à docência (magistério). No entanto, a docência é exercida, também, por quem se dedica ao ato não profissional (informal) de ensinar. A mãe, por exemplo, é docente na relação com o filho, quando se dedica a ensiná-lo sobre como andar de bicicleta, por exemplo. O filho, portanto, é o aprendiz ou o discente.
Compreendemos, no texto de Tardif, que a/o docente mobiliza saberer para exercer a docência. Tais saberes podem ser compreendidos numa primeira dimensão, referente ao objeto do saber:
a) Saber disciplinar: sobre aquilo a ser ensinado;
b) Saber pedagógico: sobre como ensinar e aprender;
c) Saber curricular: sobre planos e projetos para o ensino;
d) Saber contextual: sobre o meio social, cultural e político da educação, em especial sobre as condições do trabalho docente.
Numa segunda dimensão de análise, os saberes podem ser compreendidos referentes às suas origens:
a) Saberes da formação inicial: cursos de iniciação ao magistério e licenciaturas.
b) Saberes da formação continuada: pós-graduações e cursos de atualização.
c) Saberes da experiência profissional: formados no trabalho docente.
d) Saberes da experiência pessoal: formados fora da formação específica e da profissão, em outras instâncias da vida, como na família, na religião, nas amizades e, principalmente, na vida estudantil.
Nesta aula, aprendemos que o saber docente é complexo e multifacetado, não podendo se reduzir a qualidades individuais, a influências do meio ou ao que é ensinado nos cursos de formação profissional. Para ensinar, o docente deve saber sobre a disciplina, a pedagogia, o currículo e o contexto envolvidos na situação. Esse saber é formado nas mais diversas instâncias da vida, com especial destaque para a atuação docente nas escolas.
1. Individualmente, descreva em seu caderno: 1 saber disciplinar, 1 saber pedagógico, 1 saber curricular e 1 saber contextual seu enquanto docente de ciências da natureza ou de biologia.
Para cada tipo de saber, complete a seguinte frase: "Como docente de ciências da natureza, eu sei que ______".
2. Para cada saber descrito, descreva também sua origem, ou seja, o contexto em que ele foi produzido (aprendido).
Para cada tipo de saber, complete a seguinte frase: "Eu aprendi isso quando _______".
Exemplo:
Como docente de ciências da natureza, eu sei que os estudantes precisam ser tratados com respeito para gostarem de aprender. Eu aprendi isso quando eu estava no ensino médio e não gostava de aprender física, pois o professor me tratava mal.
3. Para cada origem do saber, classifique se é da formação inicial, da formação continuada, da experiência pessoal ou da experiência profissional.
4. Agora, junte-se em uma equipe de entre 3 e 5 colegas. A eles, declare os saberes que descreveu, bem como suas origens, e discuta se eles estão corretos, de acordo com o entendimento da equipe em relação às categorias do saber docente.
5. A equipe tem a tarefa de selecionar um exemplo de cada tipo de saber para apresentar à turma e ao professor. Apresente com sua equipe e discuta sobre a avaliação do professor.